sábado, 14 de fevereiro de 2009

Dom Helder: acusações e defesas


Márcio de Souza Porto *

Adital - Quando eu pedia às pessoas que ajudassem os pobres, era chamado de santo. Mas quando fazia a pergunta: por que existe tanta pobreza? Era chamado de comunista. (Dom Helder Camara)


Em 1970, um boletim interno, mimeografado, do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB, presidido por Dom José de Medeiros Delgado, sob o título de ‘Dom Helder Camara: acusações e defesas’ fez um apanhado de notícias e artigos publicados nos grandes jornais do Brasil, a respeito de Dom Helder, desde maio daquele ano. Em relação às acusações, logo no início do boletim, vem assinalado que:

A imprensa brasileira vem desencadeando uma intensa campanha contra a pessoa de D. Helder Camara, Arcebispo de Olinda e Recife. Fatos comprobatórios estamos a encontrar diariamente nas páginas dos grandes jornais do país, numa prova concreta de que o Arcebispo estaria sendo tolhido nas suas manifestações. (1)

A primeira notícia reproduzida pelo citado boletim foi publicada no jornal "O Estado de São Paulo", em 30 de maio de 1970 e é assinada por Gustavo Corção. O articulista ironiza a homenagem recebida por Dom Helder na Universidade de Louvain, na França, ao ser agraciado com o título de doutor honoris causa daquela instituição de ensino superior de origem católica. Em linguagem ríspida, Corção busca desqualificar todo e qualquer apoio recebido por Dom Helder em solo francês e diz textualmente:

Não há perigo. O Sr. Câmara não completou ainda a rede de viagens que sonhou, e ainda não percorreu todas as prostituídas Universidades ex-católicas que lhe trarão uma bandeja, para ser cuspido, o título de doutor "honoris causa". (2)

Gustavo Corção sentia-se incomodado por Dom Helder ter sido recebido no "Palais des Sports", sob aplausos de 15 mil pessoas, a convite do então bispo de Lyon, Dom Alexandre Renard, onde fizera conferência inclusive com a participação de representantes das Igrejas Reformada, Apostólica da Armênia, Ortodoxa Grega e Luterana. Dom Helder era combatido também por jornalistas franceses, como no caso de Jean Marc Kalfleche, do periódico Combat, em artigo reproduzido pelo "Estado de São Paulo" em 3 de julho de 1970. Na abertura do artigo, depois de dizer que seu intuito era reduzir Dom Helder às suas verdadeiras proporções, ataca fortemente o então Arcebispo de Olinda e Recife, dizendo:

Dom Helder Câmara desapontou um pouco seus admiradores franceses, com exceção daqueles que possuem a fé do carvoeiro, isto é uma fé simples e ingênua. O fato é que o Arcebispo de Recife mostra-se bastante diferente de sua caricatura fraudulenta divulgada pela boa imprensa. O que é esse rato de Igreja, pretensamente vermelho, que não canta a glória de S. Camilo Torres, nem o martírio dos índios assados no espeto? Dom Helder não consegue iludir com seu simplismo que só produz boas manchetes. (3)

O jornal "O Globo" de 11 de julho de 1970 reproduziu os principais momentos de uma conferência pronunciada por Gustavo Corção no Conselho Técnico da Conferência Nacional do Comércio em que afirmava que o Brasil estava em guerra. Numa guerra cujas fontes, origens e causas poderiam ser encontradas na França, no início da década de 1930. Sendo Paris o centro de uma disputa entre um humanismo e um desumanismo e que os meios de comunicação e publicidade estavam nas mãos daqueles que defendiam a guerra revolucionária, concluindo que não era de admirar a existência de uma propaganda tendenciosa de correntes que tentavam denegrir a imagem do governo brasileiro no exterior. Diz ainda que ao contrário do que se pensava não fora Dom Helder o primeiro a se levantar contra o Brasil no exterior, mas os provinciais dominicanos que publicaram na "Documentação Católica" uma carta lamentando o que estava acontecendo no país e ao mesmo tempo se solidarizando com os sacerdotes correligionários presos pelo Governo brasileiro.

Dom Helder era atacado por padres, bispos, deputados, jornalistas nacionais e estrangeiros e Arcebispos, como no caso de dom Vicente Scherer, de Porto Alegre que, em entrevista ao "Jornal do Brasil" de 30 de julho de 1970, diz que ele deveria usar o prestígio que possuía em alguns círculos europeus, para desmentir calúnias contra o Brasil e a Igreja brasileira. Dom Geraldo Proença Sigaud, então bispo de Diamantina (MG), declarou ao jornal "Estado de São Paulo", em 05 de julho de 1970, antes de embarcar para Roma, que a realidade religiosa, política e social do Brasil se apresentava com uma imagem deformada na Europa, como resultado de uma campanha desenvolvida com este objetivo, acrescentando que a ideologia esquerdista dominava largos setores dos meios de informação, inclusive no campo católico. Após manter contatos na Santa Sé, Dom Geraldo dizia que seguiria para a Alemanha para proferir palestras na Baviera e em Wurtemberg, com o objetivo de alertar sobre a existência da campanha difamatória contra o Brasil, retificar o noticiário que se desenvolvia na Europa sobre o Brasil e refutar a imagem que Dom Helder havia espalhado sobre o País em cidades européias.

O "Correio do Ceará" (4) transcreveu artigo escrito por David Nasser construindo suspeitas sobre Dom Helder, indagando quem seria o financiador de suas viagens que denominava de "peregrinações do pior dos ódios". O "Jornal do Brasil" de 31 de julho de 1970 trazia declarações do Deputado Federal Clovis Stenzel, da ARENA do Rio Grande do Sul, acusando o Arcebispo de Olinda e Recife de "conspurcar a imagem do nosso País e, mais do que isso, continua a dizer inverdades a respeito do que se passa em nossa Pátria". (5)

Gustavo Corção, não satisfeito com os ataques desferidos contra Dom Helder Camara, escreveu no jornal "o Globo" de 9 de julho de 1970, um artigo no qual Dom Helder é identificado como partidário do terrorismo. Começa dizendo que o Brasil havia iniciado em 1969 uma luta cruel contra o desmantelamento da quadrilha de Marighella e o desmascaramento dos "maus religiosos" que desonravam a ordem dominicana. Aqueles que denominava de "agentes da guerra revolucionária" estavam a serviço de Havana, Pequim ou de Paris, realizando assaltos a bancos e seqüestros de embaixadores, conseguindo inquietar a opinião pública. Por outro lado, os rapazes assaltantes de bancos recebiam de Dom Helder, sem a menor hesitação, afeto e admiração, como ficava patente na entrevista dada por Dom Helder ao L’Express.

O Boletim do Regional Nordeste I reproduz, também, todas as defesas feitas em favor de Dom Helder na imprensa nacional e estrangeira, além de declarações pessoais do Arcebispo de Olinda e Recife, esclarecendo as acusações que lhe eram feitas de ser a favor da violência, sobre quem financiava as suas viagens, suas posições em face do marxismo e do socialismo. No final do documento, Dom Delgado fez publicar a "Voz de Um Bispo", sobre Dom Helder Câmara, escrito pelo então Bispo de Crateús, Dom Antônio Batista Fragoso. Mais do que uma peça de defesa de Dom Helder, o escrito de Dom Fragoso é um desabafo contra a campanha de difamação da Igreja que se colocava ao lado dos pobres e oprimidos. Dom Fragoso identifica os difamadores, entre eles a 10ª Região Militar, que através de um informativo que se dizia "estritamente confidencial" sobre as atividades políticas, sociais e religiosas de Dom Helder, no final recomendava a divulgação a vários bispos, padres e instituições religiosas, com o único objetivo de desacreditá-lo moralmente dentro da Igreja, para que Dom Helder fosse mais facilmente preso, condenado e expatriado.

Para Moreira Alves (6), Dom Helder decidiu denunciar as torturas cometidas pelo regime militar contra presos políticos, após o assassinato, em 27 de maio de 1969, do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, o primeiro padre a perder a vida sob o terror da ditadura, seu assistente para o meio estudantil, pelo Comando de Caça aos Comunistas, em Recife. De acordo com o Boletim do Secretariado Arquidiocesano de Olinda e Recife - CNBB (7), o Padre Antônio Henrique Pereira Neto tinha 29 anos, era natural de Recife e tinha feito seus estudos eclesiásticos, nos Seminários de Olinda e de João Pessoa, na América do Norte e no Seminário Regional do Nordeste. Foi ordenado sacerdote, pelo Arcebispo Dom Helder Camara, aos 25 de dezembro de 1965, na Matriz de Nossa Senhora do Rosário da Torre, onde havia sido batizado.

Na tarde do dia 26 de maio, como sempre fazia, recebeu vários jovens, no Juvenato Dom Vital, onde permaneceu até pouco depois das 19 horas. Daí saindo, esteve no bairro do Dérbi, na casa da família de um estudante, reunido com outros jovens recifenses. Saindo do Dérbi, dois estudantes levaram-no em condução própria ao Bairro do Parnamirim, onde participou de uma reunião de pais e filhos. Daquele local saiu por volta de 22:30 horas. Uma família que saiu da casa da reunião um pouco depois observou que o padre Antônio Henrique conversava no largo do Parnamirim com algumas pessoas que estavam em uma caminhoneta e com as quais parecia estar partindo.

No dia seguinte, a polícia recebeu a denúncia de que havia uma pessoa morta, em lugar ermo da Cidade Universitária. Um pouco antes das 14 horas, as autoridades eclesiásticas foram avisadas do ocorrido, tendo sido identificado o corpo, definitivamente, no Necrotério Público. Desde que teve notícia do ocorrido, Dom Helder, acompanhado do Bispo Auxiliar, Dom José Lamartine, do Abade do Mosteiro de São Bento, dos Vigários Episcopais e de vários sacerdotes e leigos, dirigiram-se ao necrotério até a conclusão da autópsia.

O sacerdote foi amarrado, arrastado, recebeu três tiros na cabeça e torturas. Dom Basílio Penido, Abade do Mosteiro de São Bento, e médico, acompanhou toda a necropsia. Todos os golpes atingiram a cabeça e o pescoço.
Por volta das 20 horas do dia 27 de maio, o corpo foi conduzido para a Matriz do Espinheiro, onde houve concelebração às 21 horas, com a participação de quarenta sacerdotes e centenas de jovens. Na quarta-feira, dia 28 de maio, houve nova concelebração de quarenta sacerdotes com Dom Helder. O Arcebispo de Olinda e Recife garantiu aos grupos de jovens que não ficariam órfãos. Após as últimas orações dos funerais, na Igreja, o corpo foi conduzido, para o sepultamento por milhares de pessoas a pé. No cruzamento da rua Visconde de Irajá com a rua Visconde de Albuquerque, o cortejo foi interceptado por um pelotão da Polícia Militar. Houve um início de pânico, mas logo se restabeleceu a calma. O Pe. Isnaldo Fonseca dirigiu-se ao comandante que o atendeu e explicou não se tratar de qualquer ação contra o enterro. Porém, não seria permitida a condução de várias faixas com dizeres que denunciavam o bárbaro assassinato do pe. Antônio Henrique. Os policiais militares recolheram rapidamente todas as faixas que continham protestos contra o brutal assassinato do pe. Antônio Henrique Pereira Neto. O cortejo prosseguiu até a Matriz da Torre, onde houve uma parada. Neste templo, o Pe. Antônio Henrique fora batizado, havia feito a primeira comunhão e fora ordenado sacerdote. Dom Helder lembrou estes acontecimentos. O povo foi consultado se o corpo poderia ser conduzido dali para o cemitério da Várzea, em carro, pois ainda faltavam cerca de seis quilômetros para o local do enterramento. A multidão resolveu continuar a pé até o final, ocupando a Avenida Caxangá, passando pela Cidade Universitária até o cemitério. Foi como que um trajeto de reparação, cobrindo possivelmente a trilha do crime, pelo menos em parte. O corpo baixou á sepultura por volta das 13:30 Hs. Dom Helder proferiu algumas palavras e após alguns minutos de silêncio foi rezado um "Pai Nosso", seguido do hino "Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão", da Campanha da Fraternidade.

Na entrada da Cidade Universitária, foi preso o deputado federal cassado, Osvaldo Lima Filho, que acompanhava o enterro e, na Avenida Caxangá, foi registrada também a prisão de um soldado do Corpo de Bombeiros, amigo da família do pe. Antônio Henrique, que ajudava a conduzir o caixão.

No jornal "Diário de Pernambuco", de 6 de julho de 1969, foi publicada a notícia de que o enfermeiro Ives José Siqueira, que trabalhava e residia em Parnamirim, em depoimento prestado à Secretaria de Segurança Pública, afirmou ter visto Rogério Matos do Nascimento, à noite, às vésperas do crime, dentro de uma Rural com um revólver na mão, juntamente com um comparsa. Embora a Comissão Judiciária, encarregada do Inquérito, nomeada pelo Governador de Pernambuco, já tivesse encerrado seus trabalhos, em razão da importância da testemunha, seus membros assistiram ao depoimento do enfermeiro durante uma hora.

Em 9 de julho de 1969, o Promotor de Justiça da 7a. Vara Criminal, Massilon Tenório Medeiros, denunciou Rogério Matos do nascimento, de 26 anos, ex-estudante e sem profissão, pelo assassinato do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto.

Logo que circulou a trágica notícia do trucidamento do Pe. Antônio Henrique, Dom Helder recebeu inúmeras mensagens de solidariedade e de pesar, por telegramas e cartas do Brasil e de diversas partes do mundo, entre as quais a do Papa Paulo VI, do Secretário de Estado do Vaticano, da Presidência do CELAM, da CNBB, de Bispos, Arcebispos, sacerdotes, religiosas e leigos.

A imprensa de Paris divulgou, em 9 de junho de 1969, um apelo em favor do Brasil, com o seguinte texto:

O assassinato do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto, assistente da Juventude Católica de Recife, revela brutalmente à opinião mundial a violência dos grupos ocultos que, pelo terror, procuram matar no povo brasileiro toda esperança de libertação. Bispos e padres são os últimos sob o regime militar e ‘católico’, em vigor a poder falar aos pobres. Um a um, estes últimos defensores são reduzidos ao silêncio. Proclamando nossa solidariedade com os 30 padres e leigos cujos nomes se encontram na mesma lista negra do Pe. Pereira Neto, assassinado; - Dom Helder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, cuja casa já foi metralhada; - o Pe. Geraldo Bonfim, condenado no dia 15 de maio, a um ano de prisão pela Justiça Militar de Fortaleza; - os padres. Antonio Alberto Soligo e João Talpes, presos em São Paulo; - Mário Carvalho de Jesus, o advogado dos trabalhadores de São Paulo, preso de 25 de abril a 10 de maio último; - os padres franceses e americanos expulsos ou acusados nestes últimos meses; - e tantos outros bispos, padres e leigos expostos às ameaças dos terroristas ou à inquisição policial; - nós pedimos, com eles, justiça para todos os brasileiros privados de seus direitos políticos, expulsos das universidades, entregues sem defesa à exploração capitalista, privados das mais elementares garantias jurídicas, - O governo brasileiro dispõe de um poder absoluto; nós lhe dirigimos um apelo em nome dos princípios que ele se atribui a fim de que use deste poder não somente para impedir a periculosidade dos comandos que multiplicam impunemente os atentados, mas ainda para restabelecer o pleno exercício dos Direitos do Homem. Nós dirigimos um apelo, igualmente, à opinião francesa e internacional, a fim de que ela empreste sua voz ao grito abafado de um povo oprimido (8)

No documento, constavam as assinaturas de Jean et Odile Bassé; José de Broucker, des Informations Catholiques Internationales; Robert Buron; Michel de Certeau S. J.; Jacques Chantagner de Temps Présent; Marie-Dominique Chenu O.P.; Pasteur Jean Casali et Mme.; André Cruiziat de Vie Nouvelle; Vicent Cosmao O. P.; Jean Marie Domenach de la Revue Esprit; Pierre et Bernadette Drouet; Abbé Michel Duclercq; Edouard Gueydan S.J.; Aumôner National des Latino-Américains; René Rémond; Mme. Emmanuel Mounier; Pierre Haubtmann, Recteur de L’Institute Catholique de Paris; Henri Lê Duan, Président de L’A.C.O.; Pasteur Lochart, de Christianisme Sociale; Dr. Jean Merilhou; La Paroisse Universitaire; Elia Perroy; Hélène Prouet; Guy Riobé, évêque d' Orléans et Président du Comité Episcopal Français pour l'Amerique Latine, Pére Congar e outras 400 assinaturas.

Dom Helder Camara, a partir da década de 1970, passou a ser o Bispo da Igreja Católica mais conhecido do mundo, por seu engajamento social e enfrentamento do regime militar no Brasil. Nos anos 60, embora muito mais cauteloso que os membros da Juventude Universitária Católica (JUC), nunca deixou de apoiar seus militantes e de assumir posições reformadoras dentro do catolicismo, o que já o colocava à frente da maioria do clero brasileiro ainda bastante conservador. Os confrontos entre a Igreja e o Estado se acirraram, quando, em 1970, Dom Helder denunciou a tortura no Brasil, durante uma palestra em Paris (9). A represália da ditadura não tardou, e em 1972, em plena Semana Santa, o Pe. José Comblin, assistente de Dom Helder, Coordenador dos Estudos Teológicos do Instituto de Teologia de Recife (ITER), ao tentar desembarcar na capital pernambucana, foi impedido de fazê-lo, obrigado a seguir viagem até o Rio de Janeiro. Nesta capital passou todo o dia 24 de março de 1972 e, no final da tarde, foi embarcado para Bruxelas. Antes do embarque forçado, o Pe. Comblin foi comunicado de que havia um Decreto proibindo-o de desembarcar em qualquer parte do território nacional. Durante o interrogatório, os agentes do aparato repressor do Estado, mostraram-lhe uma carta que ele havia escrito a Dom Fragoso, na qual fazia referências à participação que tivera em um curso de Pastoral, no município de Crateús. O Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na época, Dom Ivo Lorscheiter, informado do que estava acontecendo no Galeão, ali permaneceu a tarde inteira, buscando em vão avistar-se com o Padre. As autoridades afirmavam que ninguém estava detido no Aeroporto, muito menos, um padre.

Dom Helder protestou, por escrito contra o banimento do Pe. Comblin, em Recife, no dia 28 de março de 1972, usando as seguintes palavras:

Quem não percebe que o episódio "Comblin" é um capítulo do que vem acontecendo em todo o país com a Igreja, na medida em que ela recusa a continuar servindo de suporte a estruturas de opressão e compromete-se, de modo pacífico, mas válido, com o Povo e a sua libertação? O que há de particularmente grave no caso "Comblin" é que ele é mais um testemunho da marginalização da classe pensante. Ai de quem ousar ter e exercer consciência crítica, ao menos no tocante ao Governo e seus planos.

Quanto ao Povo, se sabe que ele está banido dentro do próprio país, por mais que, em teoria, se proclame que a meta é o homem. E tudo isso se passa em vésperas da abertura das comemorações oficiais do sesquicentenário de nossa independência política. Patriotismo, amor ao Brasil não será a coragem cívica de lembrar que é básico para termos condições morais de festejar o 7 de setembro de 1972 a abolição pura e simples do Ato Institucional nº 5? (10)

Notas:
(1) Cf. Boletim do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB. Mimeografado, s/d. 16 p. Arquivo da Sala de História Eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza (SHEAF).
(2) Idem. p. 2.
(3) Ibid,.
(4) Jornal Correio do Ceará, de 23 de julho de 1970.
(5) Cf. Boletim do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB.
(6) ALVES, Márcio Moreira. Op. Cit. p. 185-186.
(7) Notícia Sobre o Bárbaro Trucidamento do Padre Antonio Henrique Pereira da Silva Neto, no Recife, a 27 de maio de 1969. Boletim do Secretariado Arquidiocesano de Olinda e Recife (PE). Assessoria de Opinião Pública. Datilografado em 18 de julho de 1969. 14 p. Arquivo da Sala de História Eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza.
(8) Ibid., p. 10.
(9) Ver SERBIN, Kenneth P. Padres, Celibato e conflito social: uma história da Igreja católica no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p 260 - 64.
(10)municado da Arquidiocese de Olinda e Recife, datilografado e assinado por Dom Helder Camara, em 28 de março de 1972, em Recife. Acervo da Sala de História Eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza (SHEAF).

* Mestre em História Social - UFC. Doutorando em Sociologia - UFC

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

CPT presta homenagem ao MST


A Coordenação Nacional da CPT vem a público para externar sua alegria pela comemoração dos 25 anos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, neste mês de janeiro.

São passados 25 anos que marcaram a História dos Movimentos Camponeses no Brasil. A organização e combatividade do MST, a clareza de suas estratégias de luta, as conquistas de novos espaços para o assentamento de famílias, e seu envolvimento com os grandes temas nacionais e internacionais lhe renderam o reconhecimento tanto nacional, quanto internacional. No Brasil não há quem não conheça o movimento. Pesquisa do IBOPE, em meados de 2008, sob encomenda da Vale, mostrou que 97% da população brasileira conhece o MST, o que levou o instituto a concluir, em suas considerações finais, que "o MST é um movimento já incorporado pela sociedade como uma das "instituições" brasileiras".

Sua bandeira vermelha tremula de Norte a Sul do País. Seus bonés vermelhos circulam tanto nas grandes capitais, bem como nos mais distantes rincões do território nacional. E cobrem ou já cobriram a cabeça de milhares de pessoas simples, mas também de autoridades e de pessoas influentes em nossa Nação. Quando usado pelo Presidente da República provocou uma reação hipócrita daqueles que se consideram os portavozes da nacionalidade restrita a um pequeno grupo de privilegiados.

Seus acampamentos povoam as margens das rodovias, escancarando aos olhos de todos os que querem ver a escandalosa realidade agrária brasileira calcada sobre a histórica concentração de terras, deixando centenas de milhares de famílias sem a possibilidade de acesso à terra para viver e cultivar.

Se por um lado o movimento goza de imensa simpatia de diversos setores da sociedade brasileira, por outro é execrado e combatido com todas as armas possíveis - desde Decretos do poder Executivo que impedem a vistoria de áreas ocupadas, e criminalizavam lideranças, passando pelos inúmeros processos movidos contra elas no âmbito do poder judiciário, por CPIs no Legislativo nas quais se queria taxar de terroristas suas ações, chegando aos meandros do Ministério Publico, que no Rio Grande do Sul simplesmente propunha a extinção do Movimento e agora ao Tribunal de Contas da União, na tentativa de asfixiá-lo. Culmina na calúnia, perseguição, prisão e até mesmo na morte de muitas de suas lideranças. Destaque especial merece o massacre de Eldorado de Carajás quando 19 sem terra foram barbaramente assassinados, em 17 de abril de 1996.

Muitos temem o MST, e por isso deflagram campanhas para tentar isolá-lo e desmoralizá-lo.

Na realidade o MST deve ser temido por quem sempre apostou na preservação dos privilégios de uma pequena parcela da população brasileira que concentrou terras, renda e poder. Nestes 25 anos o movimento conquistou terra para mais de três centenas de milhares de famílias e inspirou o surgimento de novos movimentos de luta, não só no Brasil, como em outros países. Mas o que de melhor e de mais importante o MST conseguiu realizar foi ter aberto o caminho da cidadania e da dignidade para milhares e milhares de pessoas que nunca antes tiveram um lugar ao sol. No movimento elas encontraram espaço, começaram a ser reconhecidas, conseguiram levantar a cabeça e se fizeram respeitar. O movimento conseguiu dar a estes milhares de brasileiras e brasileiros, o que a sociedade nacional durante séculos lhes negou, o acesso à educação, à saúde, ao reconhecimento dos seus direitos. Desde o menor acampamento à beira da estrada, até o mais organizado assentamento acompanhado pelo MST, funcionam escolas para as crianças e adolescentes e uma equipe é encarregada pelos cuidados básicos de saúde. Adultos são alfabetizados. E hoje convênios com dezenas de Universidades abrem as portas do ensino superior a um grupo humano que antes não tinha nem condições de sonhar em chegar a este estágio. Centenas de processos de formação estão forjando novas lideranças que poderão ser sementes e fermento de uma profunda transformação da sociedade brasileira.

Mesmo reconhecendo as dificuldades e os conflitos que o movimento enfrenta, próprios a qualquer agremiação humana, a Coordenação Nacional da CPT não poderia deixar de reconhecer a grande riqueza que o MST trouxe à sociedade brasileira. Felicitando-
o pelo transcurso desta data, a CPT deseja-lhe que continue firme ajudando a descortinar sempre novos horizontes para os homens e mulheres do campo e a plantar novas sementes de cidadania e dignidade.

Coordenação Nacional da CPT

Goiânia, 19 de janeiro de 2009.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Réquiem por Israel?


Uma leitura atenta dos textos dos sionistas fundadores do Estado de Israel revela tudo aquilo que o Ocidente hipocritamente ainda hoje finge desconhecer: a criação de Israel é um ato de ocupação e como tal terá de enfrentar para sempre a resistência dos ocupados; não haverá nunca paz, qualquer apaziguamento será sempre aparente, uma armadilha a ser desarmada.

O artigo é de Boaventura Sousa Santos, sociólogo, e publicado pela Agência Carta Maior, 12/01/2009.

Eis o artigo.

Está ocorrendo na Palestina o mais recente e brutal massacre do povo palestino cometido pelas forças ocupantes de Israel com a cumplicidade do Ocidente, uma cumplicidade feita de silêncio, hipocrisia e manipulação grotesca da informação, que trivializa o horror e o sofrimento injusto e transforma ocupantes em ocupados, agressores em vítimas, provocação ofensiva em legítima defesa.

As razões próximas, apesar de omitidas pelos meios de comunicação ocidentais, são conhecidas. Em novembro passado a aviação israelense bombardeou a faixa de Gaza em violação das tréguas, o Hamas propôs a renegociação do controle dos acessos à faixa de Gaza, Israel recusou e tudo começou. Esta provocação premeditada teve objetivos de política interna e internacional bem definidos: recuperação eleitoral de uma coligação em risco; exército sedento de vingar a derrota do Líbano; vazio da transição política nos EUA e a necessidade de criar um fato consumado antes da investidura do presidente Obama. Tudo isto é óbvio, mas não nos permite entender o ininteligível: o sacrifício de uma população civil inocente mediante a prática de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade cometidos com a certeza da impunidade.

É preciso recuar no tempo. Não ao tempo longínquo da bíblia hebraica, o mais violento e sangrento livro alguma vez escrito. Basta recuar sessenta anos, à data da criação do Estado de Israel. Nas condições em que foi criado e depois apoiado pelo Ocidente, o Estado de Israel é o mais recente (certamente não o último) ato colonial da Europa. De um dia para o outro, 750.000 palestinos foram expulsos das suas terras ancestrais e condenados a uma ocupação sangrenta e racista para que a Europa expiasse o crime hediondo do Holocausto contra o povo judeu.

Uma leitura atenta dos textos dos sionistas fundadores do Estado de Israel revela tudo aquilo que o Ocidente hipocritamente ainda hoje finge desconhecer:
a criação de Israel é um ato de ocupação e como tal terá de enfrentar para sempre a resistência dos ocupados; não haverá nunca paz, qualquer apaziguamento será sempre aparente, uma armadilha a ser desarmada (daí, que a seguir a cada tratado de paz se tenha de seguir um ato de violação que a desminta); para consolidar a ocupação, o povo judeu tem de se afirmar como um povo superior condenado a viver rodeado de povos racialmente inferiores, mesmo que isso contradiga a evidência de que árabes e judeus são todos povos semitas; com raças inferiores só é possível um relacionamento de tipo colonial, pelo que a solução dos dois Estados é impensável; em vez dela, a solução é a do apartheid, tanto na região, como no interior de Israel (daí, os colonatos e o tratamento dos árabes israelenses como cidadãos de segunda classe); a guerra é infinita e a solução final poderá implicar o extermínio de uma das partes, certamente a mais fraca.

O que se passou nos últimos sessenta anos confirma tudo isto, mas vai muito para além disto. Nas duas últimas décadas, Israel procurou, com êxito, sequestrar a política norte-americana na região, servindo-se para isso do lobby judaico, dos neoconservadores e, como sempre, da corrupção dos líderes políticos árabes, reféns do petróleo e da ajuda financeira norte-americana. A guerra do Iraque foi uma antecipação de Gaza: a lógica é a mesma, as operações são as mesmas, a desproporção da violência é a mesma; até as imagens são as mesmas, sendo também de prever que o resultado seja o mesmo. E não se foi mais longe porque Bush, entretanto, se debilitou. Não pediram os israelenses autorização aos EUA para bombardear as instalações nucleares do Irã?

É hoje evidente que o verdadeiro objetivo de Israel, a solução final, é o extermínio do povo palestino. Terão os israelenses a noção de que a
shoah com que o seu vice-ministro da defesa ameaçou os palestinianos poderá vir a vitimá-los também? Não temerão que muitos dos que defenderam a criação do Estado de Israel hoje se perguntem se nestas condições - e repito, nestas condições - o Estado de Israel tem direito de existir?

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Entrevista especial com Marcelo Barros


Adital - Relacionar a questão do pluralismo cultural e religioso à ecologia é um dos desafios que a teologia enfrenta hoje. Para colaborar nessa discussão, o teólogo e monge beneditino Marcelo Barros participará do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que ocorre em Belém, no Pará, nos próximos dias 21 a 25 de janeiro. Seu desejo é "aprofundar a fé e o projeto divino a partir da realidade dos povos empobrecidos e dos atuais problemas do mundo". Nesse sentido, a responsabilidade da Teologia, segundo ele, é denunciar.

Nesta entrevista especial, concedida por e-mail à IHU On-Line, Barros afirma que, "para uma nova relação de respeito e de comunhão do ser humano com a natureza, não basta boa vontade ou ideologia ecológica". Para ele, um caminho novo só será possível se os governos perceberem que "o capitalismo é, por essência, depredador" e que não existe um desenvolvimento sustentável dentro dele. E também critica o atual governo, especialmente o PAC, por ainda não ter rompido com a lógica do capitalismo no que se refere às questões ambientais.

Marcelo Barros é monge beneditino e biblista. Membro da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), é autor de 32 livros, entre os quais o recém-lançado "O Amor fecunda o Universo - Ecologia e espiritualidade" (Editora Agir, 2009), em coautoria de Frei Betto.

Confira a entrevista.
IHU On-Line - Quais são os principais desafios e possibilidades que a Teologia da Libertação enfrenta hoje?
Marcelo Barros - Um importante desafio continua sendo aprofundar a fé e o projeto divino a partir da realidade dos povos empobrecidos e dos atuais problemas do mundo. A Teologia da Libertação se desenvolveu nas décadas de 70 e 80 a partir da inserção dos cristãos nos processos sociais latino-americanos (sandinistas na Nicarágua, FSMN em El Salvador, Cristãos para o Socialismo na Argentina e no Chile, CEBs e movimentos populares no Brasil, e assim por diante). Hoje, existe um processo de transformações sociais em curso em vários países da América Latina. Na Venezuela, fala-se em revolução socialista bolivariana; no Equador, em uma sociedade cidadã; na Bolívia, em uma revolução a partir da valorização das culturas indígenas. Onde está nisso tudo a Teologia da Libertação?
Outro importante desafio atual é reelaborar a Teologia da Libertação a partir da realidade diversa de um mundo pluralista e da responsabilidade das diversas religiões e tradições espirituais de contribuir com a paz, a justiça e o cuidado com a criação.

IHU On-Line - Pode esboçar alguns pontos que vão ser debatidos no Fórum, especialmente em sua conferência?
Marcelo Barros - Não terei propriamente uma conferência no Fórum. Penso que coordenarei uma oficina entre as muitas nas quais os participantes do Fórum de Teologia se dividirão, e essa oficina terá como tema "O Pluralismo Cultural e Religioso e o Desafio Ecológico". Ali apresentarei o novo livro que está saindo de autoria minha e do Frei Betto: "O Amor fecunda o Universo - Ecologia e Espiritualidade".

IHU On-Line - Quais são as articulações da teologia hoje? Existem debates teológicos com a sociedade civil em nível nacional ou latino-americano?
Marcelo Barros - Para haver pesquisa teológica, é necessário respirar-se um clima de liberdade e de diálogo respeitoso nas Igrejas e no mundo. Em vários países da América Latina, a teologia índia está presente no processo que, a partir das comunidades índias, repensa a organização social e política da sociedade e do mundo de forma a respeitar a diversidade, a interculturalidade e assim por diante. No Brasil, o fato do Fórum Social Mundial ter escolhido como tema a Amazônia e o 3º Fórum Mundial de Teologia e Libertação ter também assumido o tema da Ecologia conduz, nessa direção, os debates mais atuais.

IHU On-Line - Dados de 2005, indicam que a contaminação das águas no Brasil aumentou cinco vezes desde 1995, e que, desde 2000, o país foi responsável por cerca de 74% da área desmatada na América do Sul. Ao mesmo tempo, muito se critica os desafios ecológicos. Mas por onde se pode iniciar uma proposta mais articulada quando ainda se vê pouco apoio do governo? Por onde iniciar uma reflexão que ajude a uma mudança de mentalidade social e até religiosa com relação à natureza?
Marcelo Barros - Para uma nova relação de respeito e de comunhão do ser humano com a natureza, não basta boa vontade ou ideologia ecológica. Enquanto os governos não perceberem que o capitalismo é, por essência, depredador, e que não existe verdadeiramente um "desenvolvimento sustentável" dentro desse sistema, não temos possibilidade de um caminho novo. Estão aí os projetos de hidroelétricas na Amazônia e do desvio das águas e a construção dos canais do São Francisco para provar. Não é apenas com PAC que o governo cuida dessa questão. Romper com a lógica desse sistema é fundamental. Não podemos continuar aceitando que, entre uma estrada e um matinho, fiquemos com o desenvolvimento.
A responsabilidade da teologia nesse contexto é denunciar (alguns teólogos se pronunciaram com muita propriedade e clareza quando a ministra Marina Silva se sentiu obrigada a pedir demissão do ministério do Meio Ambiente). Além disso, temos de favorecer, desde o início, o processo de uma nova educação nas escolas, nas Igrejas e em todos os setores da sociedade. É por meio de uma nova educação que poderemos mudar isso.

IHU On-Line - Em que pontos a teologia e a ecologia convergem atualmente? Como a teologia pode ajudar a responder aos "gemidos da criação"?
Marcelo Barros - Para responder aos "gemidos da criação", temos antes de ser capazes de "escutá-los" e compreendê-los em sua natureza complexa e suas causas.
A teologia eco-feminista, que associa a tragédia que ocorre com a Terra à opressão infligida durante séculos à mulher, une a ecologia social (igualdade homem-mulher) à Ecologia ambiental. E a Teologia Pluralista da Libertação procura resgatar e revalorizar as antigas expressões espirituais das culturas indígenas e negras que adoram a divindade nas suas manifestações na terra, na água e em todos os elementos da natureza.

IHU On-Line - A partir da figura de Cristo, que guia e orienta tantas denominações cristãs no mundo, como entender a ecologia? Qual foi a relação dele com a criação e como ele nos ensina a conviver com os demais seres não-humanos?
Marcelo Barros - Quando o quarto evangelho diz: "A Palavra de Deus se fez Carne", podemos compreender que todo o universo, com a imensidade da sua "comunidade da vida", não somente se torna uma espécie de presépio permanente para a manifestação humana de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, mas também é assumida mesmo pela encarnação como uma espécie de extensão do corpo do Cristo. Os evangelhos e cartas, escritos tantos anos depois, não tinham nenhuma preocupação de falar em ecologia ou de aprofundar o que Jesus poderia nos dizer sobre isso. São testemunhos de como ele nos manifestou o projeto divino que os evangelhos chamam de "reino de Deus".
Diversas parábolas do evangelho e diversas palavras de Jesus nos mostram que a comunhão com a natureza é fundamental como caminho de intimidade com Deus. É assim que, no sermão da montanha, ele nos convida a "olhar as aves do céu e os lírios do campo" (Mateus 6, 27-28), para aprender deles a simplicidade e a viver no essencial, preocupação, hoje, tão atual com o desafio de uma sociedade que não é sustentável e não pode mais manter o mesmo ritmo de crescimento de antes. Ele nos estimula a construir a casa sobre a rocha e a abrir os olhos aos sinais do reino presentes em torno a nós no mundo. Hoje, todo o universo parece crucificado com Cristo (não são mais somente, como dizia Jon Sobrino, "os povos crucificados" ). É preciso crer na ressurreição e ser testemunhas disso. Eu procuro desenvolver uma teologia ecológica da eucaristia: a ceia da partilha e da comunhão na qual a presença de Cristo se dá através dos elementos básicos da vida e da natureza.
Hoje, cada vez mais aumenta o número das pessoas que levantam a questão dos direitos dos animais e a necessidade da nossa sociedade mudar totalmente a forma como os animais são tratados como objeto para o consumo e maltratados imensamente para engordar mais rápido e para ser sacrificados com mais lucro. Quem aprofunda uma espiritualidade ecológica começa a pensar em um vegetarianismo de paz e não-violência com as outras espécies animais.

IHU On-Line - O que seria uma espiritualidade libertadora? Que grupos e/ou experiências você pode salientar nesse sentido?
Marcelo Barros - Se a espiritualidade significa "deixar-se conduzir pelo Espírito", a experiência de muitos de nós é que podemos vivenciar isso na prática da solidariedade. Desde 1978, assessoro e acompanho a Pastoral da Terra. Tenho de confessar que, poucas vezes, vivi experiências verdadeiramente místicas, quase de êxtase, como quando acompanhei uma ou outra comunidade de lavradores sem-terra a ocupar um terreno incultivado. Cantando e orando pela madrugada, eu me senti plenamente refazendo o Êxodo bíblico e pude experimentar a presença divina junto àquele povo.
É verdade que vivo isso também quando participo de algum culto afro-brasileiro no Candomblé. Todo dia, procuro encontrar essa intimidade com Deus no sacramento e posso dizer que a encontro na escuridão e sobriedade da fé, Mas, no outro e no diferente, parece que ele se excede e grita para nós sua presença e seu amor. Todos os grupos que vivem a solidariedade como expressão de fé vivem uma espiritualidade libertadora.
Para mim, são exemplos e testemunhas de espiritualidade libertadora, o padre Júlio Lancelotti em São Paulo (ele, as irmãs beneditinas e equipe) no trabalho com o povo da rua e com as crianças que têm Aids. Continuo vibrando com o testemunho profético de irmãos como Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno e outros pastores que não descansam na sua profecia. E devo dizer com sinceridade que o MST, mesmo sendo um movimento leigo e que não tem nenhuma opção religiosa, sempre me toca pela força espiritual que sinto neles, em cada contato e em cada evento do qual participo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Foz do Rio São Francisco





As fotos de João Zinclar são de janeiro de 2009, na região do baixo São Francisco, entre Propriá (SE) e Porto Real do Colégio (AL), Penedo (AL) e Brejo Grande (SE), já na foz do rio. Imagens que não deixam duvidas e dizem muito mais do que qualquer propaganda governamental. Em Propriá (SE) e Penedo (AL), os bancos de areia no leito do rio fazem parte da paisagem. Verdadeiras ilhas de areia consolidadas, já com vegetação rasteira formada, mostram um rio cada vez mais debilitado, com pouca água no leito.A cena mais impressionante ocorreu em Brejo Grande, a menos de um quilômetro do encontro do rio com as águas do mar. No dia 05 de janeiro, atravessando o rio em uma pequena embarcação (hoje só é possível a elas nave gar na foz do rio São Francisco) presenciamos uma inusitada travessia de búfalos, cruzando da margem a um banco de areia no meio do rio para pastar na vegetação que ali se formou. O Velho Chico, que depois de percorrer mais de dois mil quilômetros, atravessar cinco estados brasileiros, sofre com a falta de água na sua foz.A simbologia da tranqüila travessia de búfalos para pastar numa "ilha" no meio do rio é mais um exemplo da triste realidade enfrentada pelo chamado Rio da Integração Nacional. Não distante deste ponto, é possível observar o farol do cabeço, que há uma década ficava no meio de um povoado que lhe dá o nome e hoje encontra-se a vários metros adentro das águas do Oceano Atlântico, que avançam a medida em que rio não tem mais força para derramar suas água no mar, devido à seqüência de barragens para geração de energia elétrica ao longo de seu trajeto. É o rio morrendo a partir da foz. No baixo São Francisco, a revitalização do rio, amplamente anunciada pelo governo em peças publicitárias, até o momento não passa de placas de obras nas margens das estradas e alguns projetos de esgotamento sanitário em municípios da região, sem no entanto haver nenhuma ação concreta. Enquanto isso estão em andamento as obras da transposição.Hoje, dia 09 de janeiro, escrevo de Paulo Afonso (BA). Aqui há uma luta interessante pela preservação de sítios arquelógicos. Volto ao tema nos próximos posts. Reginaldo Eusébio.

Um abraço terno.
Frei Gilvander Moreira

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A água (que ninguém vê) na guerra



Ana Echevenguá[1]

Para além das manchetes do conflito do Oriente Médio, há uma batalha pelo controle dos limitados recursos hídricos na região. Embora a disputa entre Israel e seus vizinhos se concentre no modelo terra por paz, ''há uma realidade histórica de guerras pela água'' - tensões sobre as fontes do Rio Jordão, localizadas nas Colinas de Golã, precederam a Guerra dos Seis Dias”. Raymond Dwek - The Guardian, [24/NOV/2002]


A nossa sobrevivência na Terra está ameaçada. Sem alimento, o ser humano resiste até 40 dias; sem água, morre em 3 dias. Somos água! Mas, enquanto a população se multiplica e a poluição recrudesce, as fontes de água desaparecem.

Na guerra do momento – Israel em Gaza -, por que a mídia sensacionalista não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio? Oriente Médio... uma região aonde água vale mais do que petróleo... E sempre nos passam a idéia de que lá as guerras ocorrem pela conquista das reservas de petróleo.

E a conquista das reservas de água? Em 1997, o então vice-diretor geral da UNESCO, Adnan Badran, no seminário “Águas transfronteiriças: fonte de paz e guerra” (que centrou os debates nas águas do Mar Aral, do rio Jordão, do Nilo...) disse que “a água substituirá o petróleo como principal fonte de conflitos no mundo”.

Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina. Além de restringir o uso d’água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural. Ali, ele é o “dono” das:

- águas superficiais: bacia do rio Jordão (incluindo o alto Jordão e seus tributários), o mar da Galiléia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão;

- águas subterrâneas: 2 grandes sistemas de aqüíferos: o aqüífero da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma pequena porção sob o Estado de Israel), aqüífero de Basin e o aqüífero Costeiro que se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza.

Tais águas são ‘transfronteiriças’, são recursos naturais compartilhados. Segundo recente inventário da UNESCO, 96% das reservas de água doce mundiais estão em aqüíferos subterrâneos, compartilhados por pelo menos dois países.

Há regras internacionais para o uso dessas águas. Algumas destas obrigam Israel a fornecer água potável aos palestinos.

Mas Israel não compartilha a água; afinal, tais regras internacionais não prevêem mecanismos de coação ou coerção; é letra morta. O Tribunal Internacional de Justiça, até hoje, condenou apenas um caso relacionado com águas internacionais.

A estratégia de Israel é outra. Em 1990, o jornal Jerusalém Post publicou que “é difícil conceber qualquer solução política consistente com a sobrevivência de Israel que não envolva o completo e contínuo controle israelense da água e do sistema de esgotos, e da infra-estrutura associada, incluindo a distribuição, a rede de estradas, essencial para sua operação, manutenção e acessibilidade”
[2]. Palavras do ministro da agricultura israelense sobre a necessidade de Israel controlar o uso dos recursos hídricos da Cisjordânia através da ocupação daquele território.

O Acordo de Paz de Oslo de 1993, por exemplo, estipulou que os palestinos deveriam ter mais controle e acesso à água da região.

Nessa época, segundo o professor da Hebrew University, Haim Gvirtzman, dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de fontes na Judéia e Samaria, os israelenses usavam quase 500 milhões, satisfazendo cerca de um terço de suas necessidades hídricas. Para ele, isso gerou um ‘direito adquirido sobre a água’. Questionado sobre o acesso palestino à água, o professor respondeu que “Israel deve somente se preocupar com um padrão mínimo de vida palestino, nada mais, o que significa suprimento de água para eles só para as necessidades urbanas. Isso chega a cerca de cinqüenta/cem milhões de metros cúbicos por ano. Israel é capaz de suportar essa perda. Portanto, não deveríamos permitir que os palestinos desenvolvessem qualquer atividade agrícola, porque tal desenvolvimento virá em prejuízo de Israel. Certamente, nunca permitiremos aos palestinos suprir as necessidades hídricas da Faixa de Gaza por meio do aqüífero montanhoso. Se purificar a água do mar é uma solução realista, então deixemos que o façam para as necessidades dos residentes da Faixa de Gaza”
[3].

E na Guerra pela Água vale tudo: os israelenses bombardeiam tanques d’água, grandes ou pequenos (muitas vezes construídos nos telhados de suas casas), confiscam as bombas d’água, destroem poços, proíbem que explorem novos poços e novas fontes d’água (a Cisjordânia, em 2003, contava com cerca de 250 fontes ilegais e a Faixa de Gaza, com mais de 2 mil). Israel irriga 50% das terras cultivadas, mas a agricultura na Palestina exige prévia autorização.
Então, furto de água das adutoras de Israel é comum naquela região.
A regra do jogo é esta: enquanto o palestino não tem acesso à água para beber, o israelense acostumou-se ao seu uso irrestrito.


Sendo assim, dá pra imaginar uma outra forma de divisão ou de uso compartilhado desses recursos hídricos para os próximos anos? Dá pra imaginar a sobrevivência de qualquer estado e, nesse caso, da Palestina sem o controle efetivo do acesso e da distribuição dos recursos hídricos que necessita?


Botar a mão na água é coisa antiga. Britânicos e franceses no Oriente Médio definiram as fronteiras (em especial da Palestina) de olho nas águas da bacia do rio Jordão.
Desde 1948, Israel prioriza projetos, inclusive bélicos, para garantir o controle de água na região. Dentre estes:
- a construção do Aqueduto Nacional (National Water Carrier);
- em 1967, anexou os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia e tomou da Síria as Colinas do Golã, ricos em fontes de água, para controlar os afluentes do Rio Jordão. Sobre esta guerra, Ariel Sharon falou que a idéia surgiu em 1964, quando Israel decidiu controlar o suprimento d’água;
- em 2002, a construção o ‘muro de segurança’ viabilizou o controle israelense da quase totalidade do aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. Segundo Noam Chomsky, “o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídrico críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem...”
[4]. Antes do muro, ele já fornecia metade da água para os assentamentos israelenses. Com a destruição de 996 quilômetros de tubulação de água, à população palestina do entorno do muro falta água para beber;
- antes de devolver (simbolicamente) a Faixa de Gaza, Israel destruiu os recursos hídricos da região. E, até hoje, não há infra-estrutura hídrica nas regiões palestinas.
Quantos falam a respeito disso??? Em 2003, na 3ª Conferência Mundial sobre Água, em Kyoto, Mikhail Gorbachev bateu na tecla dos conflitos mundiais pela água: contabilizou, na época, 21 conflitos armados objetiva apropriação de mais fontes de água; destes, 18 ocorreram em Israel.
Gestão conjunta, consumo igualitário de água, ética e consenso na água – palavras bonitas no papel, nas mesas de negociação, na mídia... Na prática, é utopia.
O que a ONU e os donos do planeta estão esperando para exigir que Israel cumpra as regras internacionais sobre águas mesmo que estas contidas em convenções, acordos, declarações (e outras abobrinhas)...
Quem vai ter coragem de criar regras claras e objetivas para punir a violação dos direitos dos povos e nações à sua soberania sobre seus recursos e riquezas naturais?


[1] Advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente da ong Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas, e-mail: ana@ecoeacao.com.br , website: www.ecoeacao.com.br
[2]http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/internacional/2002/11/23/jorint20021123004.html

[3]http://www.galizacig.com/actualidade/200403/portoalegre2003_muro_humilhacao_e_roubo.htm
[4] Do livro de Noam Chomsky: Novas e Velhas Ordens Mundiais, São Paulo, Ed. Scritta, 1996.
[5][1] Segundo muitos estudiosos a palavra hebreu e a palavra hapiru têm a mesma raiz. Hapiru é a palavra que gerou a palavra hebreu.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Recusamos a perecer silenciosamente: Palestina e o ciclo da violência


Jung Mo Sung*

Khaled Meshal, líder do grupo Hamas que vive no exílio, na Síria, escreveu um artigo para o jornal inglês The Guardian (reproduzido no O Estado de São Paulo, 07/01/09) que merece de nós uma reflexão. Após denunciar a situação do povo palestino na Faixa de Gaza, - que descreveu como "encarcerado na maior prisão do mundo, isolado por terá, ar e mar, morrendo de fome, sem ter acesso nem mesmo a remédios para tratar nossos doentes", - ele diz que "é absurdo a lógica daqueles que exigem o fim da nossa resistência. Eles absolvem de responsabilidade o agressor e ocupante - armando com as mais mortíferas armas de destruição -, enquanto culpam a vítima, o prisioneiro, aquele que vive sob ocupação".
É claro que ele está respondendo às acusações de que Hamas, por ter disparado foguetes e morteiros contra população civil de sul do Israel, é o culpado pelo recente ataque e invasão das forças armadas de Israel na Faixa de Gaza e também das mortes de mulheres, velhos e crianças palestinas.
A sua principal argumentação está resumida no parágrafo que segue: "Nossos modestos foguetes de fabricação caseira são nosso grito de protesto endereçado ao mundo todo. Israel e os seus patrocinadores europeus e americanos querem que sejamos massacrados em silêncio. Mas nós nos recusamos a perecer silenciosamente".
A dramática e opressiva situação em que vive a população palestina no Oriente Médio - que foi causada, logo após a Segunda Guerra Mundial, pela tentativa de solucionar a dramática situação em que vivia o povo judeu - não pode ser esquecida, silenciada ou deixada de lado. Nesse sentido, Meshal tem razão quando diz: "nós nos recusamos a perecer silenciosamente". O último recurso da vítima é clamar contra a opressão. Aliás, a tradição judaico-cristão nasce da convicção ou revelação de que Deus escutou o clamor do povo que estava sendo oprimido na terra do Faraó.
Recusar a perecer silenciosamente é uma prova de que a dominação ainda não conseguiu tirar da vítima o seu senso de dignidade. Viktor Frankl, um judeu sobrevivente dos campos de concentração nazista, dizia que adentrar ao câmara de gás de cabeça erguida era uma forma de a vítima afirmar a sua dignidade humana, mesmo que fosse pela última vez. Porém, em um mundo complexo como o nosso, é preciso escolher bem o meio pelo qual um povo ou grupo oprimido envia ao mundo o seu grito de protesto. Pois, além da manifestação da dignidade, esse grito é também um meio de luta e, portanto, precisa contribuir na obtenção da libertação.
Eu sei que é fácil para um não-palestino, escrevendo longe das condições infra-humanas da Faixa de Gaza, falar da necessidade de pensar com cuidado as melhores formas de expressar este grito de protesto. Mas, é preciso que nós também adentremos nesta discussão porque, no fundo, estamos ligados por um mesmo espírito de luta pela liberdade e vida digna.
A pergunta que surge é: os foguetes e morteiros que atingem cidades israelenses são a melhor forma de expressar o grito de protesto e o clamor do povo palestino? A história nos mostra que Israel revida com mais violência, que gera mais sofrimento, raiva e ódio no povo palestino que, por sua vez, tenta revidar com mais violência, gerando um ciclo de violência. E quando um ciclo de violência se estabelece, os mais fortes e violentos acabam por vencer e as pessoas mais pobres e fracas são as que mais sofrem as dores e as mortes. Além disso, os defensores da política do atual governo de Israel e seus aliados usam exatamente estes foguetes como justificativa para legitimar suas ações armadas e para culpabilizar Hamas e, de um certo modo, ao todo povo palestino.
Quando o ciclo de violência se estabelece, as origens e as causas históricas do conflito acabam sendo esquecidas e parece que a única solução é a destruição completa do seu inimigo; como têm defendido os extremistas do lado israelense e palestino. Só que essa saída não é hoje historicamente viável, e por isso não há saída dentro da lógica do ciclo da violência-vingança-violência. Isto sem falar no problema ético da solução pelo extermínio do inimigo.
Edward Said, um grande intelectual palestino engajado na causa palestina, dizia que um dos problemas da luta do povo palestino é que não tinha logrado mostrar ao mundo duas coisas, que ele tinha aprendido com Nelson Mandela. O primeiro é mostrar ao mundo que a causa palestina, a luta pela independência ou autonomia do seu povo que lhe permitisse uma vida digna e livre, é moralmente superior do que a causa dos seus adversários. O segundo, que ela é uma causa que faz bem não somente ao seu povo, mas a toda humanidade.
Podemos discordar de métodos concretos utilizados para expressar o seu grito de protesto, mas não podemos negar aos povos dominados o direito de recusar a perecer silenciosamente.
(Autor de "Cristianismo de libertação", Ed. Paulus).

* Professor de pós-graduação em Ciências da Religião