domingo, 8 de fevereiro de 2009

Entrevista especial com Marcelo Barros


Adital - Relacionar a questão do pluralismo cultural e religioso à ecologia é um dos desafios que a teologia enfrenta hoje. Para colaborar nessa discussão, o teólogo e monge beneditino Marcelo Barros participará do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que ocorre em Belém, no Pará, nos próximos dias 21 a 25 de janeiro. Seu desejo é "aprofundar a fé e o projeto divino a partir da realidade dos povos empobrecidos e dos atuais problemas do mundo". Nesse sentido, a responsabilidade da Teologia, segundo ele, é denunciar.

Nesta entrevista especial, concedida por e-mail à IHU On-Line, Barros afirma que, "para uma nova relação de respeito e de comunhão do ser humano com a natureza, não basta boa vontade ou ideologia ecológica". Para ele, um caminho novo só será possível se os governos perceberem que "o capitalismo é, por essência, depredador" e que não existe um desenvolvimento sustentável dentro dele. E também critica o atual governo, especialmente o PAC, por ainda não ter rompido com a lógica do capitalismo no que se refere às questões ambientais.

Marcelo Barros é monge beneditino e biblista. Membro da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), é autor de 32 livros, entre os quais o recém-lançado "O Amor fecunda o Universo - Ecologia e espiritualidade" (Editora Agir, 2009), em coautoria de Frei Betto.

Confira a entrevista.
IHU On-Line - Quais são os principais desafios e possibilidades que a Teologia da Libertação enfrenta hoje?
Marcelo Barros - Um importante desafio continua sendo aprofundar a fé e o projeto divino a partir da realidade dos povos empobrecidos e dos atuais problemas do mundo. A Teologia da Libertação se desenvolveu nas décadas de 70 e 80 a partir da inserção dos cristãos nos processos sociais latino-americanos (sandinistas na Nicarágua, FSMN em El Salvador, Cristãos para o Socialismo na Argentina e no Chile, CEBs e movimentos populares no Brasil, e assim por diante). Hoje, existe um processo de transformações sociais em curso em vários países da América Latina. Na Venezuela, fala-se em revolução socialista bolivariana; no Equador, em uma sociedade cidadã; na Bolívia, em uma revolução a partir da valorização das culturas indígenas. Onde está nisso tudo a Teologia da Libertação?
Outro importante desafio atual é reelaborar a Teologia da Libertação a partir da realidade diversa de um mundo pluralista e da responsabilidade das diversas religiões e tradições espirituais de contribuir com a paz, a justiça e o cuidado com a criação.

IHU On-Line - Pode esboçar alguns pontos que vão ser debatidos no Fórum, especialmente em sua conferência?
Marcelo Barros - Não terei propriamente uma conferência no Fórum. Penso que coordenarei uma oficina entre as muitas nas quais os participantes do Fórum de Teologia se dividirão, e essa oficina terá como tema "O Pluralismo Cultural e Religioso e o Desafio Ecológico". Ali apresentarei o novo livro que está saindo de autoria minha e do Frei Betto: "O Amor fecunda o Universo - Ecologia e Espiritualidade".

IHU On-Line - Quais são as articulações da teologia hoje? Existem debates teológicos com a sociedade civil em nível nacional ou latino-americano?
Marcelo Barros - Para haver pesquisa teológica, é necessário respirar-se um clima de liberdade e de diálogo respeitoso nas Igrejas e no mundo. Em vários países da América Latina, a teologia índia está presente no processo que, a partir das comunidades índias, repensa a organização social e política da sociedade e do mundo de forma a respeitar a diversidade, a interculturalidade e assim por diante. No Brasil, o fato do Fórum Social Mundial ter escolhido como tema a Amazônia e o 3º Fórum Mundial de Teologia e Libertação ter também assumido o tema da Ecologia conduz, nessa direção, os debates mais atuais.

IHU On-Line - Dados de 2005, indicam que a contaminação das águas no Brasil aumentou cinco vezes desde 1995, e que, desde 2000, o país foi responsável por cerca de 74% da área desmatada na América do Sul. Ao mesmo tempo, muito se critica os desafios ecológicos. Mas por onde se pode iniciar uma proposta mais articulada quando ainda se vê pouco apoio do governo? Por onde iniciar uma reflexão que ajude a uma mudança de mentalidade social e até religiosa com relação à natureza?
Marcelo Barros - Para uma nova relação de respeito e de comunhão do ser humano com a natureza, não basta boa vontade ou ideologia ecológica. Enquanto os governos não perceberem que o capitalismo é, por essência, depredador, e que não existe verdadeiramente um "desenvolvimento sustentável" dentro desse sistema, não temos possibilidade de um caminho novo. Estão aí os projetos de hidroelétricas na Amazônia e do desvio das águas e a construção dos canais do São Francisco para provar. Não é apenas com PAC que o governo cuida dessa questão. Romper com a lógica desse sistema é fundamental. Não podemos continuar aceitando que, entre uma estrada e um matinho, fiquemos com o desenvolvimento.
A responsabilidade da teologia nesse contexto é denunciar (alguns teólogos se pronunciaram com muita propriedade e clareza quando a ministra Marina Silva se sentiu obrigada a pedir demissão do ministério do Meio Ambiente). Além disso, temos de favorecer, desde o início, o processo de uma nova educação nas escolas, nas Igrejas e em todos os setores da sociedade. É por meio de uma nova educação que poderemos mudar isso.

IHU On-Line - Em que pontos a teologia e a ecologia convergem atualmente? Como a teologia pode ajudar a responder aos "gemidos da criação"?
Marcelo Barros - Para responder aos "gemidos da criação", temos antes de ser capazes de "escutá-los" e compreendê-los em sua natureza complexa e suas causas.
A teologia eco-feminista, que associa a tragédia que ocorre com a Terra à opressão infligida durante séculos à mulher, une a ecologia social (igualdade homem-mulher) à Ecologia ambiental. E a Teologia Pluralista da Libertação procura resgatar e revalorizar as antigas expressões espirituais das culturas indígenas e negras que adoram a divindade nas suas manifestações na terra, na água e em todos os elementos da natureza.

IHU On-Line - A partir da figura de Cristo, que guia e orienta tantas denominações cristãs no mundo, como entender a ecologia? Qual foi a relação dele com a criação e como ele nos ensina a conviver com os demais seres não-humanos?
Marcelo Barros - Quando o quarto evangelho diz: "A Palavra de Deus se fez Carne", podemos compreender que todo o universo, com a imensidade da sua "comunidade da vida", não somente se torna uma espécie de presépio permanente para a manifestação humana de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, mas também é assumida mesmo pela encarnação como uma espécie de extensão do corpo do Cristo. Os evangelhos e cartas, escritos tantos anos depois, não tinham nenhuma preocupação de falar em ecologia ou de aprofundar o que Jesus poderia nos dizer sobre isso. São testemunhos de como ele nos manifestou o projeto divino que os evangelhos chamam de "reino de Deus".
Diversas parábolas do evangelho e diversas palavras de Jesus nos mostram que a comunhão com a natureza é fundamental como caminho de intimidade com Deus. É assim que, no sermão da montanha, ele nos convida a "olhar as aves do céu e os lírios do campo" (Mateus 6, 27-28), para aprender deles a simplicidade e a viver no essencial, preocupação, hoje, tão atual com o desafio de uma sociedade que não é sustentável e não pode mais manter o mesmo ritmo de crescimento de antes. Ele nos estimula a construir a casa sobre a rocha e a abrir os olhos aos sinais do reino presentes em torno a nós no mundo. Hoje, todo o universo parece crucificado com Cristo (não são mais somente, como dizia Jon Sobrino, "os povos crucificados" ). É preciso crer na ressurreição e ser testemunhas disso. Eu procuro desenvolver uma teologia ecológica da eucaristia: a ceia da partilha e da comunhão na qual a presença de Cristo se dá através dos elementos básicos da vida e da natureza.
Hoje, cada vez mais aumenta o número das pessoas que levantam a questão dos direitos dos animais e a necessidade da nossa sociedade mudar totalmente a forma como os animais são tratados como objeto para o consumo e maltratados imensamente para engordar mais rápido e para ser sacrificados com mais lucro. Quem aprofunda uma espiritualidade ecológica começa a pensar em um vegetarianismo de paz e não-violência com as outras espécies animais.

IHU On-Line - O que seria uma espiritualidade libertadora? Que grupos e/ou experiências você pode salientar nesse sentido?
Marcelo Barros - Se a espiritualidade significa "deixar-se conduzir pelo Espírito", a experiência de muitos de nós é que podemos vivenciar isso na prática da solidariedade. Desde 1978, assessoro e acompanho a Pastoral da Terra. Tenho de confessar que, poucas vezes, vivi experiências verdadeiramente místicas, quase de êxtase, como quando acompanhei uma ou outra comunidade de lavradores sem-terra a ocupar um terreno incultivado. Cantando e orando pela madrugada, eu me senti plenamente refazendo o Êxodo bíblico e pude experimentar a presença divina junto àquele povo.
É verdade que vivo isso também quando participo de algum culto afro-brasileiro no Candomblé. Todo dia, procuro encontrar essa intimidade com Deus no sacramento e posso dizer que a encontro na escuridão e sobriedade da fé, Mas, no outro e no diferente, parece que ele se excede e grita para nós sua presença e seu amor. Todos os grupos que vivem a solidariedade como expressão de fé vivem uma espiritualidade libertadora.
Para mim, são exemplos e testemunhas de espiritualidade libertadora, o padre Júlio Lancelotti em São Paulo (ele, as irmãs beneditinas e equipe) no trabalho com o povo da rua e com as crianças que têm Aids. Continuo vibrando com o testemunho profético de irmãos como Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno e outros pastores que não descansam na sua profecia. E devo dizer com sinceridade que o MST, mesmo sendo um movimento leigo e que não tem nenhuma opção religiosa, sempre me toca pela força espiritual que sinto neles, em cada contato e em cada evento do qual participo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Foz do Rio São Francisco





As fotos de João Zinclar são de janeiro de 2009, na região do baixo São Francisco, entre Propriá (SE) e Porto Real do Colégio (AL), Penedo (AL) e Brejo Grande (SE), já na foz do rio. Imagens que não deixam duvidas e dizem muito mais do que qualquer propaganda governamental. Em Propriá (SE) e Penedo (AL), os bancos de areia no leito do rio fazem parte da paisagem. Verdadeiras ilhas de areia consolidadas, já com vegetação rasteira formada, mostram um rio cada vez mais debilitado, com pouca água no leito.A cena mais impressionante ocorreu em Brejo Grande, a menos de um quilômetro do encontro do rio com as águas do mar. No dia 05 de janeiro, atravessando o rio em uma pequena embarcação (hoje só é possível a elas nave gar na foz do rio São Francisco) presenciamos uma inusitada travessia de búfalos, cruzando da margem a um banco de areia no meio do rio para pastar na vegetação que ali se formou. O Velho Chico, que depois de percorrer mais de dois mil quilômetros, atravessar cinco estados brasileiros, sofre com a falta de água na sua foz.A simbologia da tranqüila travessia de búfalos para pastar numa "ilha" no meio do rio é mais um exemplo da triste realidade enfrentada pelo chamado Rio da Integração Nacional. Não distante deste ponto, é possível observar o farol do cabeço, que há uma década ficava no meio de um povoado que lhe dá o nome e hoje encontra-se a vários metros adentro das águas do Oceano Atlântico, que avançam a medida em que rio não tem mais força para derramar suas água no mar, devido à seqüência de barragens para geração de energia elétrica ao longo de seu trajeto. É o rio morrendo a partir da foz. No baixo São Francisco, a revitalização do rio, amplamente anunciada pelo governo em peças publicitárias, até o momento não passa de placas de obras nas margens das estradas e alguns projetos de esgotamento sanitário em municípios da região, sem no entanto haver nenhuma ação concreta. Enquanto isso estão em andamento as obras da transposição.Hoje, dia 09 de janeiro, escrevo de Paulo Afonso (BA). Aqui há uma luta interessante pela preservação de sítios arquelógicos. Volto ao tema nos próximos posts. Reginaldo Eusébio.

Um abraço terno.
Frei Gilvander Moreira

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A água (que ninguém vê) na guerra



Ana Echevenguá[1]

Para além das manchetes do conflito do Oriente Médio, há uma batalha pelo controle dos limitados recursos hídricos na região. Embora a disputa entre Israel e seus vizinhos se concentre no modelo terra por paz, ''há uma realidade histórica de guerras pela água'' - tensões sobre as fontes do Rio Jordão, localizadas nas Colinas de Golã, precederam a Guerra dos Seis Dias”. Raymond Dwek - The Guardian, [24/NOV/2002]


A nossa sobrevivência na Terra está ameaçada. Sem alimento, o ser humano resiste até 40 dias; sem água, morre em 3 dias. Somos água! Mas, enquanto a população se multiplica e a poluição recrudesce, as fontes de água desaparecem.

Na guerra do momento – Israel em Gaza -, por que a mídia sensacionalista não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio? Oriente Médio... uma região aonde água vale mais do que petróleo... E sempre nos passam a idéia de que lá as guerras ocorrem pela conquista das reservas de petróleo.

E a conquista das reservas de água? Em 1997, o então vice-diretor geral da UNESCO, Adnan Badran, no seminário “Águas transfronteiriças: fonte de paz e guerra” (que centrou os debates nas águas do Mar Aral, do rio Jordão, do Nilo...) disse que “a água substituirá o petróleo como principal fonte de conflitos no mundo”.

Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina. Além de restringir o uso d’água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural. Ali, ele é o “dono” das:

- águas superficiais: bacia do rio Jordão (incluindo o alto Jordão e seus tributários), o mar da Galiléia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão;

- águas subterrâneas: 2 grandes sistemas de aqüíferos: o aqüífero da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma pequena porção sob o Estado de Israel), aqüífero de Basin e o aqüífero Costeiro que se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza.

Tais águas são ‘transfronteiriças’, são recursos naturais compartilhados. Segundo recente inventário da UNESCO, 96% das reservas de água doce mundiais estão em aqüíferos subterrâneos, compartilhados por pelo menos dois países.

Há regras internacionais para o uso dessas águas. Algumas destas obrigam Israel a fornecer água potável aos palestinos.

Mas Israel não compartilha a água; afinal, tais regras internacionais não prevêem mecanismos de coação ou coerção; é letra morta. O Tribunal Internacional de Justiça, até hoje, condenou apenas um caso relacionado com águas internacionais.

A estratégia de Israel é outra. Em 1990, o jornal Jerusalém Post publicou que “é difícil conceber qualquer solução política consistente com a sobrevivência de Israel que não envolva o completo e contínuo controle israelense da água e do sistema de esgotos, e da infra-estrutura associada, incluindo a distribuição, a rede de estradas, essencial para sua operação, manutenção e acessibilidade”
[2]. Palavras do ministro da agricultura israelense sobre a necessidade de Israel controlar o uso dos recursos hídricos da Cisjordânia através da ocupação daquele território.

O Acordo de Paz de Oslo de 1993, por exemplo, estipulou que os palestinos deveriam ter mais controle e acesso à água da região.

Nessa época, segundo o professor da Hebrew University, Haim Gvirtzman, dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de fontes na Judéia e Samaria, os israelenses usavam quase 500 milhões, satisfazendo cerca de um terço de suas necessidades hídricas. Para ele, isso gerou um ‘direito adquirido sobre a água’. Questionado sobre o acesso palestino à água, o professor respondeu que “Israel deve somente se preocupar com um padrão mínimo de vida palestino, nada mais, o que significa suprimento de água para eles só para as necessidades urbanas. Isso chega a cerca de cinqüenta/cem milhões de metros cúbicos por ano. Israel é capaz de suportar essa perda. Portanto, não deveríamos permitir que os palestinos desenvolvessem qualquer atividade agrícola, porque tal desenvolvimento virá em prejuízo de Israel. Certamente, nunca permitiremos aos palestinos suprir as necessidades hídricas da Faixa de Gaza por meio do aqüífero montanhoso. Se purificar a água do mar é uma solução realista, então deixemos que o façam para as necessidades dos residentes da Faixa de Gaza”
[3].

E na Guerra pela Água vale tudo: os israelenses bombardeiam tanques d’água, grandes ou pequenos (muitas vezes construídos nos telhados de suas casas), confiscam as bombas d’água, destroem poços, proíbem que explorem novos poços e novas fontes d’água (a Cisjordânia, em 2003, contava com cerca de 250 fontes ilegais e a Faixa de Gaza, com mais de 2 mil). Israel irriga 50% das terras cultivadas, mas a agricultura na Palestina exige prévia autorização.
Então, furto de água das adutoras de Israel é comum naquela região.
A regra do jogo é esta: enquanto o palestino não tem acesso à água para beber, o israelense acostumou-se ao seu uso irrestrito.


Sendo assim, dá pra imaginar uma outra forma de divisão ou de uso compartilhado desses recursos hídricos para os próximos anos? Dá pra imaginar a sobrevivência de qualquer estado e, nesse caso, da Palestina sem o controle efetivo do acesso e da distribuição dos recursos hídricos que necessita?


Botar a mão na água é coisa antiga. Britânicos e franceses no Oriente Médio definiram as fronteiras (em especial da Palestina) de olho nas águas da bacia do rio Jordão.
Desde 1948, Israel prioriza projetos, inclusive bélicos, para garantir o controle de água na região. Dentre estes:
- a construção do Aqueduto Nacional (National Water Carrier);
- em 1967, anexou os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia e tomou da Síria as Colinas do Golã, ricos em fontes de água, para controlar os afluentes do Rio Jordão. Sobre esta guerra, Ariel Sharon falou que a idéia surgiu em 1964, quando Israel decidiu controlar o suprimento d’água;
- em 2002, a construção o ‘muro de segurança’ viabilizou o controle israelense da quase totalidade do aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. Segundo Noam Chomsky, “o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídrico críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem...”
[4]. Antes do muro, ele já fornecia metade da água para os assentamentos israelenses. Com a destruição de 996 quilômetros de tubulação de água, à população palestina do entorno do muro falta água para beber;
- antes de devolver (simbolicamente) a Faixa de Gaza, Israel destruiu os recursos hídricos da região. E, até hoje, não há infra-estrutura hídrica nas regiões palestinas.
Quantos falam a respeito disso??? Em 2003, na 3ª Conferência Mundial sobre Água, em Kyoto, Mikhail Gorbachev bateu na tecla dos conflitos mundiais pela água: contabilizou, na época, 21 conflitos armados objetiva apropriação de mais fontes de água; destes, 18 ocorreram em Israel.
Gestão conjunta, consumo igualitário de água, ética e consenso na água – palavras bonitas no papel, nas mesas de negociação, na mídia... Na prática, é utopia.
O que a ONU e os donos do planeta estão esperando para exigir que Israel cumpra as regras internacionais sobre águas mesmo que estas contidas em convenções, acordos, declarações (e outras abobrinhas)...
Quem vai ter coragem de criar regras claras e objetivas para punir a violação dos direitos dos povos e nações à sua soberania sobre seus recursos e riquezas naturais?


[1] Advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente da ong Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas, e-mail: ana@ecoeacao.com.br , website: www.ecoeacao.com.br
[2]http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/internacional/2002/11/23/jorint20021123004.html

[3]http://www.galizacig.com/actualidade/200403/portoalegre2003_muro_humilhacao_e_roubo.htm
[4] Do livro de Noam Chomsky: Novas e Velhas Ordens Mundiais, São Paulo, Ed. Scritta, 1996.
[5][1] Segundo muitos estudiosos a palavra hebreu e a palavra hapiru têm a mesma raiz. Hapiru é a palavra que gerou a palavra hebreu.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Recusamos a perecer silenciosamente: Palestina e o ciclo da violência


Jung Mo Sung*

Khaled Meshal, líder do grupo Hamas que vive no exílio, na Síria, escreveu um artigo para o jornal inglês The Guardian (reproduzido no O Estado de São Paulo, 07/01/09) que merece de nós uma reflexão. Após denunciar a situação do povo palestino na Faixa de Gaza, - que descreveu como "encarcerado na maior prisão do mundo, isolado por terá, ar e mar, morrendo de fome, sem ter acesso nem mesmo a remédios para tratar nossos doentes", - ele diz que "é absurdo a lógica daqueles que exigem o fim da nossa resistência. Eles absolvem de responsabilidade o agressor e ocupante - armando com as mais mortíferas armas de destruição -, enquanto culpam a vítima, o prisioneiro, aquele que vive sob ocupação".
É claro que ele está respondendo às acusações de que Hamas, por ter disparado foguetes e morteiros contra população civil de sul do Israel, é o culpado pelo recente ataque e invasão das forças armadas de Israel na Faixa de Gaza e também das mortes de mulheres, velhos e crianças palestinas.
A sua principal argumentação está resumida no parágrafo que segue: "Nossos modestos foguetes de fabricação caseira são nosso grito de protesto endereçado ao mundo todo. Israel e os seus patrocinadores europeus e americanos querem que sejamos massacrados em silêncio. Mas nós nos recusamos a perecer silenciosamente".
A dramática e opressiva situação em que vive a população palestina no Oriente Médio - que foi causada, logo após a Segunda Guerra Mundial, pela tentativa de solucionar a dramática situação em que vivia o povo judeu - não pode ser esquecida, silenciada ou deixada de lado. Nesse sentido, Meshal tem razão quando diz: "nós nos recusamos a perecer silenciosamente". O último recurso da vítima é clamar contra a opressão. Aliás, a tradição judaico-cristão nasce da convicção ou revelação de que Deus escutou o clamor do povo que estava sendo oprimido na terra do Faraó.
Recusar a perecer silenciosamente é uma prova de que a dominação ainda não conseguiu tirar da vítima o seu senso de dignidade. Viktor Frankl, um judeu sobrevivente dos campos de concentração nazista, dizia que adentrar ao câmara de gás de cabeça erguida era uma forma de a vítima afirmar a sua dignidade humana, mesmo que fosse pela última vez. Porém, em um mundo complexo como o nosso, é preciso escolher bem o meio pelo qual um povo ou grupo oprimido envia ao mundo o seu grito de protesto. Pois, além da manifestação da dignidade, esse grito é também um meio de luta e, portanto, precisa contribuir na obtenção da libertação.
Eu sei que é fácil para um não-palestino, escrevendo longe das condições infra-humanas da Faixa de Gaza, falar da necessidade de pensar com cuidado as melhores formas de expressar este grito de protesto. Mas, é preciso que nós também adentremos nesta discussão porque, no fundo, estamos ligados por um mesmo espírito de luta pela liberdade e vida digna.
A pergunta que surge é: os foguetes e morteiros que atingem cidades israelenses são a melhor forma de expressar o grito de protesto e o clamor do povo palestino? A história nos mostra que Israel revida com mais violência, que gera mais sofrimento, raiva e ódio no povo palestino que, por sua vez, tenta revidar com mais violência, gerando um ciclo de violência. E quando um ciclo de violência se estabelece, os mais fortes e violentos acabam por vencer e as pessoas mais pobres e fracas são as que mais sofrem as dores e as mortes. Além disso, os defensores da política do atual governo de Israel e seus aliados usam exatamente estes foguetes como justificativa para legitimar suas ações armadas e para culpabilizar Hamas e, de um certo modo, ao todo povo palestino.
Quando o ciclo de violência se estabelece, as origens e as causas históricas do conflito acabam sendo esquecidas e parece que a única solução é a destruição completa do seu inimigo; como têm defendido os extremistas do lado israelense e palestino. Só que essa saída não é hoje historicamente viável, e por isso não há saída dentro da lógica do ciclo da violência-vingança-violência. Isto sem falar no problema ético da solução pelo extermínio do inimigo.
Edward Said, um grande intelectual palestino engajado na causa palestina, dizia que um dos problemas da luta do povo palestino é que não tinha logrado mostrar ao mundo duas coisas, que ele tinha aprendido com Nelson Mandela. O primeiro é mostrar ao mundo que a causa palestina, a luta pela independência ou autonomia do seu povo que lhe permitisse uma vida digna e livre, é moralmente superior do que a causa dos seus adversários. O segundo, que ela é uma causa que faz bem não somente ao seu povo, mas a toda humanidade.
Podemos discordar de métodos concretos utilizados para expressar o seu grito de protesto, mas não podemos negar aos povos dominados o direito de recusar a perecer silenciosamente.
(Autor de "Cristianismo de libertação", Ed. Paulus).

* Professor de pós-graduação em Ciências da Religião

sábado, 31 de janeiro de 2009

Carta aos Judeus


Frei Betto
11/01/2009

[Carta de Maurício Abdalla, companheiro no Movimento Fé e Política, professor de filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo referendada por Frei Betto]

"Por mais que o governo de Israel e todos os que o apóiam tentem, não irei odiar a vocês, irmãos judeus. Ainda que as tropas israelenses matem centenas de crianças e pessoas inocentes, não irei desejar a morte de suas crianças nem jogar a culpa na totalidade de seu povo.
"Mesmo que manchem a Faixa de Gaza com o sangue de um povo, que também corre em minhas veias, metade árabe, não irei revoltar-me contra nenhuma etnia nem julgar que há raças melhores ou com mais direitos que outras, como quer nos fazer acreditar o governo israelense.
"Embora eu também queira ouvir as vozes judaicas de protesto contra o massacre dos palestinos, não deixarei de condenar os que se calaram diante do holocausto judeu. E mesmo que tomem à força a terra do povo árabe, não irei jamais apoiar o confisco dos bens do povo judaico, praticado há tempos pelo governo nazista.
"Por mais que o governo de Israel e todos que o apóiam traiam a tradição hebraica dos grandes profetas que clamaram por justiça e paz, ainda quero manter viva a esperança que eles anunciaram. Mesmo que joguem sua memória na lata de lixo, faço dos profetas do antigo Israel os meus profetas, pois o anúncio da justiça não distingue credos, nações ou etnias.
"Sei que muitos de vocês condenam a violência, não apóiam o massacre dos árabes palestinos, e gostariam que o governo de Israel respeitasse as decisões da ONU e o clamor da comunidade internacional pelo cessar-fogo imediato. Mas, gritem! Se sua voz não for ouvida, acreditar-se-ão com razão aqueles que ainda falam mal de seu povo.
"Mesmo que sejam deploráveis todos os anti-semitas, o silêncio dos judeus diante do massacre perpetrado pelo país que ostenta a estrela de Davi na bandeira pode ser usado como reforço para os argumentos torpes da superioridade racial.
"Há mais de 60 anos seu povo clamou ao mundo por solidariedade. Chegou o momento de retribuir, de mostrar que a solidariedade é um sentimento universal e não restrito a uma etnia. Não deixem o governo de Israel fazer esquecer o quanto vocês sofreram como vítimas, só porque agora ele é algoz e está protegido pela maior potência mundial, os EUA.
"Não permitam que a ação de Israel faça parecer que, apesar das manifestações mundiais de condenação, seu Estado se acredita o único que possui razão, pois era assim que o governo alemão pensava no tempo do nazismo.
"Estejam certos de uma coisa: independentemente do resultado da absurda campanha israelense ou qualquer que seja a posição de seu povo diante da violência e injustiça cometida por aquele país, não irei ceder à tentação do pensamento racista; não irei apagar da minha memória a catástrofe do nazismo e o sofrimento do povo judeu; não irei pensar que há povos que não merecem nação e que devem ser eliminados; não deixarei de condenar o anti-semitismo ou qualquer tipo de preconceito étnico.
"Continuarei defendendo a idéia de que todos, sem distinção, somos iguais, e temos os mesmos direitos: judeus, negros, árabes, índios, asiáticos etc. Manter-me-ei firme em minhas convicções, pois jamais quero me igualar aos governantes de Israel e àqueles que o apóiam."
Faço minhas as palavras de meu querido amigo Maurício Abdalla, companheiro no Movimento Fé e Política, professor de filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo e autor de reconhecida qualidade, como o comprova o texto acima, que tão bem traduz a indignação e a dor de tantos que testemunhamos a guerra do Oriente Médio.
Vários intelectuais judeus têm manifestado indignação frente às operações do Estado de Israel. Tom Segev, historiador e cientista político, escreveu no "Haaretz" que "Israel sempre acreditou que causar sofrimento a civis palestinos os faria rebelarem-se contra seus líderes nacionais, o que se mostrou errado várias vezes". O escritor Amos Oz sublinhou: "chegou o tempo de buscar um cessar-fogo", com o que concorda o escritor David Grossman e o ex-chanceler israelense Shlomo Ben-Ami.

Fontes: Adital;
http://www.revistamissoes.org.br/artigos_ler.php?ref=2692

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Por um novo pacto ecológico


Os problemas que a humanidade enfrenta podem ser considerados insignificantes diante da ameaça concreta à vida do ser humano. A extinção do ser humano é uma possibilidade real. Não se trata de messianismos ou de tipos de convulsões coletivas fundamentalistas de mortes em massa em nome de um sistema religioso. Pelo contrário, são os próprios seres humanos que estão promovendo essa possibilidade real de extinção, de desaparecimento, do fim.

Na noite do dia 24 de janeiro, na cidade de Belém – Pará, durante o III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, teve-se um momento histórico com três personagens que lutam e defendem um novo pacto ecológico para humanidade. Não foi um debate e, muito menos, palestras para ouvintes cansados de um dia de atividades variadas. Foi um momento sublime de diálogo, de construção do "pathos" utópico, de amor e compaixão para com a vida que se manifesta em toda natureza. Nós, homens e mulheres, somos parte desse Todo ambiental, ecológico, natural e cultural.

Sob a mediação do Procurador da República no Estado do Pará, Felício Pontes, os mais de 1.000 participantes do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação tiveram a oportunidade de ver, aprender, escutar, aplaudir e resgatar os sonhos com dois personagens históricos da luta popular por um mundo melhor, a saber: a Senadora Marina Silva, acreana, seringueira, mulher e com uma humildade que a torna forte e guerreira nos momentos necessários; e Leonardo Boff, teólogo da libertação, ecologista, cristão no mundo, educador e como ele mesmo se intitula: "um agitador social", função do intelectual engajado. Ambos dialogaram a partir do tema: "A vida do Planeta desde a Amazônia".

A abertura do diálogo foi realizada pelo Procurador da República, Felício Pontes, que assumiu a tarefa de introduzir o tema. Sua tarefa como representante da Justiça no Estado do Pará vem se destacando pela defesa das causas populares e da ecologia. Sua introdução se destaca pelo compromisso que assume na defesa jurídica aos seringueiros, camponeses, indígenas, povos da floresta e com a própria Amazônia. Para ele, vivemos o choque entre dois mundos, o choque entre dois modelos de desenvolvimento, a saber: o modelo predatório e o modelo sócio-ambiental.

O modelo predatório nega a existência do ser humano, o direito às pessoas em suas condições materiais, existenciais, biológicas, econômicas e sociais o que permite a geração de violência no campo e na floresta com forte imposição do trabalho escravo e a morte de trabalhadores rurais, indígenas e agentes de pastoral. Tais episódios podem estão atestados nos relatórios da Comissão Pastoral da Terra que a cada ano lança um Relatório dos Conflitos no Campo. Este modelo se encontra pautado em quatro eixos predatórios: madeira, pecuária, extração mineral e monocultura agrícola. Para estes "homens de negócio" a floresta é um obstáculo que gera o latifúndio e a concentração de renda. Além disso, este modelo predatório consegue financiamento público para atingir os interesses capitalistas por meio de três bancos públicos: Banco da Amazônia, Banco do Brasil e a SUDAM. Com dinheiro público se financia a cultura de morte e o modelo predatório que se torna a fonte especulativa mais perigosa na Amazônia, em especial, na região Sul do Pará.

O modelo socioambiental, utópica e urgentemente necessária, permite à floresta uma possibilidade de viver e que os povos de que dela dependem utilizem a metodologia do socioextrativismo interrompendo a cultura predatória. O Procurador da República, Felício Pontes, conclama para a urgência das demarcações das terras indígenas, quilombolas, seringueiros e ribeirinhos. Atualmente, 4% da Amazônia já é uma reserva extrativista que deve ser mantida e ampliada.

Por sua vez, a Senadora Marina Silva iniciou sua intervenção afirmando que a destruição da Amazônia significa um grave problema de desequilíbrio. O que seria a Amazônia para o mundo? Pulmão? Coração? Marina Silva nos deixa uma nova alternativa. A Amazônia é o rim do mundo, já que dessa porção continental entra e saí muita água que doa vida aos seres da floresta e à própria floresta. Por isso, pensar a Amazônia significa pensar outro tipo de democracia que possibilite o diálogo a partir de forças mediadoras. Também, pensar a Amazônia é pensar os conflitos de interesse. São os mesmos interesses de capital predatório que gera o que podemos chamar de "crise civilizatória".

Seria o momento de mudar os paradigmas? As mudanças são frutos das mãos do próprio ser humano que desde a Revolução Industrial assumiu como fundamento o paradigma da dominação, do predatório, da barbárie, do genocídio e do etnocídio, da cultura e do pensamento único... Trata-se de um paradigma único e absoluto, fruto de uma visão antropocêntrica. Na tradição judaico-cristã, Deus cria primeiro todas as coisas antes de criar o homem. Assim, poderia o homem colocar-se acima de tudo e de todos com uma argumentação infantil e fundamentalista que legitima a lógica dominante?

Vejamos: "Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra" (Gen 1, 28). Como se trata de interesses, os homens utilizam ideologicamente este versículo isolado sem nenhuma hermenêutica dos conceitos para justificar o paradigma antropocêntrico por meio da Bíblia. Dominai significa compaixão, cuidado e responsabilidade para com a Terra onde não existe a barbárie da destruição.

Com o extermínio da floresta há um extermínio dos povos tradicionais que ali vivem, em especial, os 60 milhões de índios em toda América Latina. Por isso, a razão instrumental do Ocidente, chamada pelo sociólogo português Boaventura de Souza Santos de "razão indolente" já não responde mais aos problemas da humanidade. Para que tenhamos uma idéia do problema indolente, atualmente, temos 1/3 (um terço) da humanidade que sofre com a desertificação afetando 20% da soberania alimentar mundial. Por outro lado, 75% de CO² produzido pelo Brasil se devem ao desmatamento das florestas amazônica, cerrado e atlântica. Os países ricos produzem 80% de CO², sendo os Estados Unidos o campeão de emissão de CO², em torno de 20%. Os países emergentes juntos são responsáveis pelos 20% que restam.
Para Marina Silva, precisamos de um diálogo com os saberes por meio da troca de experiências com culturas diferentes que respeitam e valorizam os saberes narrativos, em especial, dos povos indígenas. Durante 500 anos de chegada dos invasores europeus, no Brasil foram massacrados 1 milhão de índios em cada século o que podemos caracterizar uma estimativa de 20% do total de mortos durante a II Guerra Mundial. Atualmente, são 500 mil índios no Brasil. Dessa forma, seria uma grande injustiça trocar 18 mil índios da Raposa Terra do Sol por 06 arrozeiros grileiros no Estado de Roraima. Isto seria uma ameaça à soberania nacional.

Concordamos com a reflexão serena de Marina Silva onde afirmou que nos alimentamos por muito tempo do pensamento cartesiano e seu dualismo constante. Para a lógica cartesiana, as coisas ou são boas ou são más. Por isso, o pensamento cartesiano apresenta um profundo sistema maniqueísta que o fundamenta. Para a Senadora Marina Silva precisamos superar a dicotomia cartesiana entre saber versus conhecer. Segundo a ex-ministra do meio ambiente "precisamos pensar o mundo a partir da Amazônia e pensar a Amazônia a partir do mundo".

Além disso, 80% da população mundial vivem no estado de "homo sapiens" e 20% destes se encontram no estado avançado "homo sapiens global" onde somente os melhores, os ricos e os que detêm o monopólio do capital é que conseguem atingir. Por isso, mais um motivo para mudarmos de paradigma, de modelo, numa visão de desenvolvimento e de progresso marcados profundamente por uma lógica de aceleração mercantil. Com isso, somos chamados ao alerta em não acreditar nos projetos que homogeneízam sonhos e as utopias e que desrespeitam a diversidade.

Por sua vez, Leonardo Boff iniciou seu diálogo afirmando que a Floresta Amazônica é um patrimônio da humanidade, com um ecossistema riquíssimo. Os povos indígenas são os verdadeiros ecologistas e educadores que nos ensinam as representações simbólicas do significado "ser cultural". A natureza, por excelência é um grande sistema vivo.

Para Leonardo Boff, a crise do capital que estamos vivenciado na atualidade "tem tudo para ser uma crise final", pois, ou nos adequamo-nos às condições da Terra, enquanto filhos da Terra que somos ou então padeceremos em nossa imbecilidade paradigmática e morreremos juntos. Diante de tudo isso, Leonardo Boff apresentou a proposta da Declaração Universal do Bem Comum Planetário que está sendo preparado por vários intelectuais, entre eles, François Houtart.

Os fundamentos éticos dessa Declaração deverão estar pautados sob a égide de 4 (quatro) Pactos que minimizem o econômico como paradigma fundante da sociedade capitalista. São eles: 1) O Pacto ecológico natural: responsável por proteger a Terra; 2) O Pacto ecológico social: responsável por unir todas as esperanças das nações e unilateralmente as vontades de um único Império absoluto; 3) O Pacto ecológico cultural: que deve estar baseado na promoção do pluralismo, da tolerância e do aphantesis (encontro) da humanidade com os ecossistemas, os biomas, com a vida do Planeta; 4) Por fim, o Pacto ecológico ético-espiritual: fundado na dimensão do cuidado, na compaixão, na responsabilidade de todos com tudo.
Evidentemente, estes pactos não podem ser dicotomizados e classificados hierarquicamente, pois estão por vir-a-ser a partir da superação dessa lógica cartesiana que persegue nossas consciências. Seria realmente uma verdadeira lição para os analfabetos ecológicos dos Ministérios da Agricultura e da Fazenda que em nossa realidade brasileira andam privilegiando o modelo predatório estimulado pelo agronegócio e pelo hidronegócio.

São questões importantes apontadas por Leonardo Boff que nos indica que a Terra poderá continuar vivendo mesmo sem a vida humana por falta de amor às dimensões libertadoras desse ser humano, principalmente, em tempos de ameaça da vida promovida pelas próprias pessoas. Uma prova disso é o orçamento militar de todo o Planeta que, de forma inadmissível, gira em torno de 1 Trilhão e 200 Bilhões de Dólares. Destes, 24 Bilhões poderiam resolver metade dos problemas da fome no mundo. Somente na guerra do Iraque foram utilizados 400 Bilhões. Trata-se realmente de uma razão indolente, irracional e anti-humana.

Podemos concluir com Marina Silva e Leonardo Boff que os povos da terra, os pobres do mundo, os povos indígenas, seringueiros, camponeses e ribeirinhos não podem ser condenados a viver neste vale de lágrimas. Outro mundo é possível? Outra sociedade é possível? Outros paradigmas são possíveis? Serão possíveis desde que partamos para o enfrentamento e o rompimento com a razão indolente deste capitalismo predatório que mutila milhões de vidas a uma situação de morte anunciada. Eticamente podemos realizar este novo pacto ecológico e estamos no limite do tempo para fazê-lo. Dependerá de nós, dessa geração, anunciar este pacto e denunciar o velho paradigma em crise.

Claudemiro Godoy do Nascimento
Filósofo e Teólogo. Mestre em Educação/Unicamp. Doutorando em Educação/UnB. Professor da Universidade Federal do Tocantins – UFT/Campus de Arraias.
E-mail:
claugnas@uft.edu.br

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

As estranhas acusações de Clodovis Boff


José Comblin*

Adital - Como vários amigos, fiquei estupefato quando li as acusações feitas por Clodovis Boff à teologia que ele chama de teologia de libertação. Não existe nenhuma instituição chamada teologia da libertação de tal modo que muitos podem perguntar-se se são da teologia da libertação ou não. A acusação feita à chamada teologia da libertação é totalmente indefinida.
Clodovis não cita nomes e não dá nenhuma referência, nenhuma a obras de alguns autores que seriam incriminados. Não cita as páginas em que estão os erros. A acusação é a seguinte: a teologia da libertação substituiu Cristo pelo pobre. O pobre ocupa o lugar de Cristo do cristianismo. Essa substituição é tão forte que os teólogos da libertação substituíram a cristologia por uma pobrelogia.
Essa acusação é espantosa. Suprimir o lugar central de Cristo é deixar de ser cristão. Na palavra de Clodovis os teólogos da libertação - cujo nome não aparece - já não são cristãos. Já estão fora da Igreja. Os sacramentos que celebram ou recebem são sacrilégios. Clodovis é muito mais severo do que a Sagrada Congregação para a Defesa da Fé, porque condena muitos de uma vez.
Além disso, os teólogos da libertação ficam totalmente desacreditados no povo de Deus. Deveriam ser evitados porque poderiam contaminar almas inocentes.Não existe lista oficial dos teólogos da libertação. Mas há alguns nomes que eventualmente poderiam entrar numa lista não oficial, e sujeita à revisão se alguns não aceitam essa identificação.
Quero dar testemunho de que os teólogos da seguinte lista, que conheci ou conheço pessoalmente crêem no lugar central de Cristo no cristianismo e não defendem a pobrelogia. Quero defender publicamente Gustavo Guitiérrez, Juan Luis Segundo, Ronaldo Muñoz, João Batista Libânio, Luiz Carlos Susin, Cleto Caliman, Leonardo Boff, Carlos Palácio, F. Taborda, Agenor Brighenti, Jon Sobrino, I. Ellacuría, Pedro Trigo, Luis del Valle, Carlos Bravo, Miguel Concha, Virgilio Elizondo, Hugo Echegaray, Víctor Codina, Alberto Parra, Roberto Oliveros, José Luis Caravias, Pablo Richard, Paulo Suess, Diego Irrarázaval, Marcelo Barros, Juan Hernándes Pico. Estes teólogos acreditam no lugar central de Cristo e não substituem Cristo pelos pobres. Todos querem destacar o lugar que ocupam os pobres na revelação cristã, mas ninguém os coloca no lugar de Cristo. Mas todos são suspeitos. Não quero citar nomes de teólogas para que não sejam expostas à suspeita, mas nenhuma se aproxima nem de longe da tese da pobrelogia. Aliás, elas se identificariam mais com a teologia feminina do que com a teologia da libertação.
Eu mesmo não sei se posso estar na lista e me pergunto se eu também não coloco os pobres no lugar de Cristo e já não seria mais cristão. No entanto, muitas pessoas me consideram como cristão. Eu estaria enganando-as? Como sair da dúvida?
Há com certeza teólogos que não conheço pessoalmente. Os culpados estariam entre eles? De qualquer maneira, já que a acusação é geral, ela atinge todos os nomes citados.
Achei muita petulância, para não dizer inconsciente arrogância, essa maneira de acusar todos os colegas teólogos latino-americanos, como se ele fosse o dono da verdade.
Se encontrou em alguns escritos algumas expressões que não entendeu bem, ou suscitam dúvidas que se lembre do princípio de caridade: quando não entendo bem uma expressão, preciso dar ao autor o benefício da interpretação mais favorável, até que argumentos convincentes venham demonstrar o contrário.
O autor poderia dizer que escreveu dentro de um gênero literário, o gênero de requisitório, o que explicaria e justificaria as suas expressões inflamadas. Usou um linguajar de procurador. Não se deveria tomar tão literalmente as acusações que são, antes de mais nada, exercícios de eloqüência.
Sucede que há leitores que vão tomar literalmente as acusações. Podem inclusive abrir processos. Estas denúncias lembram um fato histórico que poderia ser um precedente. Lembro-me do padre Roger Vekemans, que, para minha confusão, era do país em que nasci. Depois de Medellín, Vekemans declarou a guerra a Gustavo Gutierrez e lhe prometeu que iria destruí-lo. Deixou o Chile, foi para Colômbia e fundou um centro DESA, dedicado exclusivamente a atacar e denunciar a teologia da libertação. Vekemans lançou o tema da teologia da libertação como fachada que esconde o marxismo na Igreja. Segundo ele, a teologia da libertação era a penetração do marxismo na Igreja. Era uma corrupção total do cristianismo.
Vekemans fundou uma revista para repetir indefinidamente as mesmas denúncias. Há uma frase famosa de Voltaire em que diz que repetindo sempre a mesma mentira, sempre produz um efeito. Foi o que fez Vekemans. Teve bastante êxito. Forneceu a Alfonso Lopez Trujillo toda a documentação para atacar os teólogos da libertação. Este foi mais alto. A Instrução do cardeal Ratzinger sobre a teologia da libertação repete todos os argumentos de Vekemans.
É verdade que o Papa João Paulo II proclamou que a teologia da libertação estava morta. Mas de repente agora em Roma podem descobrir que ainda não estava totalmente morta e precisa de um golpe final.
A nova heresia já recebeu um nome: pobrologia. Dar um nome é muito perigoso porque as pessoas se contentam como repetir o nome, o que as dispensa de ler as obras. O nome inclusive não é muito adequado literariamente. Mistura o português com o grego. Todas as palavras que terminam em -logia, começam com uma palavra grega: teologia, cristologia, pneumatologia antropologia, cardiologia, oftalmologia, ecologia, psicologia, oncologia, dermatologia, etc. Aqui devia ser "ptochologia" já que em grego pobre se diz ""ptochos".
Clodovis multiplica os argumentos para mostrar que Jesus está no centro do cristianismo. Ninguém vai discordar. É como ensinar o catecismo ao senhor vigário.. Mas essa repetição dos argumentos parece insinuar que os teólogos da libertação são muito ignorantes da cristologia. Então muitos leitores vão pensar que esses teólogos são mesmo muito ignorantes. O que se consegue com isso? Quem vai sofrer com essas controvérsias, são os pobres. Os teólogos têm comida garantida, casa garantida. Se são condenados, não vão sofrer muito. Quem vai sofrer serão os pobres na medida em que a Igreja se desinteressa deles por medo de cair numa heresia. Sempre ouvi Gustavo Gutiérrez dizendo que a teologia da libertação pode morrer e não importa. O que importa, são os pobres. Para um cristão a teologia é algo completamente secundário e dispensável. Mas os pobres não são dispensáveis. Não se pode ser cristão sem acolher a mensagem que vem dos pobres.
Alguns podem ficar exasperados pela preocupação constante pelos pobres. Lembro-me de uma frase que ficou famosa e que foi pronunciada por um alto dignitário eclesiástico. Dom Leonidas Proaño foi bispo de Riobamba no Equador durante 30 anos. Na sua diocese os índios constituem 80% da população. Quando chegou na diocese, descobriu o estado de horrível miséria dos índios tratados como animais. Dedicou a sua vida à libertação dos índios, a libertação cristã. Viveu pobre, visitou constantemente os miseráveis povoados da montanha onde moram os índios. A sua casa estava sempre aberta para os índios que vinham à cidade para vender as poucas coisas que podiam vender. A primeira coisa que fez dom Leônidas foi organizar uma casa de acolhida na cidade para que os índios pudessem tomar banho. Pois nas suas montanhas falta água. A segunda coisa que fez, foi a reforma agrária em duas fazendas da diocese em que descobriu os instrumentos de tortura que se usavam para forçar os índios a trabalhar.
Foram 30 anos de luta. Basta ver os índios hoje em dia para ver que o seu trabalho não foi em vão. Há alguns meses atrás o presidente da república foi a Riobamba para proclamar Proaño patrimônio da pátria. A assembléia constituinte decidiu que seria obrigatório em todas as escolas do país ensinar a vida e os ensinamentos de Proaño. Um dia um jornalista perguntou a essa alta personalidade eclesiástica o que pensava de dom Leônidas Proaño. A personalidade respondeu "É um homem muito bom. Mas ele tem a mania dos índios!"
Então poderíamos também dizer de alguns teólogos: "É um homem bom, mas ele tem a mania dos pobres!".
Compreendi melhor a centralidade dos pobres no cristianismo num episódio da minha vida. Foi no Equador também. Foi em 1976, quando 17 bispos foram presos em Riobamba . Havia também umas 40 pessoas, padres, religiosas, leigos e leigas. Entre estes estava Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz. Eu estava no meio. Fomos todos levados por soldados armados de metralhetas até um quartel de Quito e deixados numa sala, sem explicação. No meio da noite, alguns bispos acharam que seria muito bom celebrar a eucaristia. Mas como achar pão e vinho? Uma senhora equatoriana foi falar com os soldados e conseguiu convencê-los que trouxessem algo de pão e de vinho.
Celebraram a eucaristia. Ora, nesse mesmo dia, um dos bispos, dom Parra León, bispo de Cumaná na Venezuela, celebrava os seus 50 anos de sacerdócio. Estava tão emocionado que chorava. Então ele disse: "Faz 50 anos que celebro a eucaristia todos os dias sem perder nenhum dia. Mas só agora estou entendendo!".
Pode-se celebrar a eucaristia pensando em tudo o que ensinam os teólogos e os liturgistas. Pode-se celebrar com muita piedade e devoção, com muitos sentimentos de amor, mas sem entender. Não se entende a eucaristia e de modo geral não se entende Jesus Cristo a partir da piedade, dos sentimentos religiosos, ou a partir dos conhecimentos teológicos. Tudo isso é secundário e não permite penetrar na realidade. Quando o bispo estava preso ( uma prisão ainda bem suave), estava numa situação de impotência, era pobre. Então entendeu.
Clodovis quer salientar que o fundo da teologia é professar: "Cristo é o Senhor". Acho que todos os teólogos sabem disso e ninguém vai discutir. Mas o problema é outro. O problema é "quem diz "Cristo é Senhor"? Onde? Quando?
O general Videla dizia "Cristo é Senhor". O general Pinochet dizia "Cristo é Senhor" Era fé? Ou era blasfêmia? A elite latino-americana que oprimiu os povos durante 500 anos sempre proclamou: "Cristo é Senhor". Era ato de fé? Ainda é ato de fé? Este é o nosso problema. Os teólogos latino-americanos afirmaram: quem pode dizer "Cristo é Senhor" com sinceridade, como expressão de toda a sua vida, são os pobres. Daí o lugar central dos pobres, que não afeta em nada o lugar central de Cristo, pelo contrário, o confirma.
Os poderosos proclamam "Cristo é Senhor", mas a sua vida diz: "Senhor, sou eu!" O grito de Paulo "Cristo é Senhor" é um protesto contra todos os "Senhores", uma denúncia da opressão, um desafio lançado contra os que se acham os Senhores. É uma negação de todos os poderes opressores. Há somente um Senhor!
O papel da teologia não consiste em buscar quais são as palavras que expressam a fé, mas o que é a fé realmente vivida.
Pois, não se entende Jesus a partir da teologia, seja ela de libertação ou de prosperidade. A questão não é saber o que significam as palavras atribuídas a Jesus nas celebrações ou na teologia. Não se trata de entender as palavras escritas na Bíblia para entender a realidade. Jesus aparece no seu verdadeiro sentido, como realidade, a partir de uma situação na qual o cristão se assimila a ele. Vivendo o que ele viveu, se pode entender. Somente os pobres dizem de modo autêntico "Cristo é Senhor!" Todos os outros podem dizer as palavras corretas que no seu caso, somente expressam figuração, imaginação, sensibilidade, até comédia. A piedade pode enganar muito, criando a ilusão de fé quando se trata de uma fantasia mental, ou de uma fórmula administrativa de um bom funcionário que é pago para dizer essas coisas.
Quem não é pobre, pode aprender dos pobres, com a condição de ser muito humilde. Jesus viveu a impotência, a fragilidade dos pobres. Para entendê-lo é preciso entrar na mesma condição.
Jesus Cristo é o centro do Reino de Deus, o centro de toda a história da salvação, o centro de cada vida de discípulo. Mas não se trata do nome "Jesus Cristo", mas da realidade. Ora, essa realidade de Cristo somente se manifesta a quem vive nele, com ele, fazendo a mesma experiência humana. Por isso há uma centralidade da pobreza como acesso à centralidade de Jesus Cristo.
Isto não é novidade. Em todas as fases da história da Igreja houve cristãos que entenderam bem isso. Na América latina, depois de séculos de dependência e de passividade colonial com os olhos fechados sobre a condição dos índios ou dos negros, houve um despertar. Os olhos abriram-se. Bispos, sacerdotes, religiosas, religiosos, leigos e leigas, converteram-se quando descobriram a realidade da humanidade e o vazio da sua religião.
Por isso houve a Conferência de Medellín que foi como o descobrimento de Jesus Cristo na sua realidade, na sua presença. Era preciso descobrir os pobres para descobrir Jesus Cristo. A Conferência de Medellín foi preparada pelo Pacto das Catacumbas. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 bispos do mundo inteiro reuniram-se na catacumba de Santa Domitila em Roma e assinaram o Pacto das Catacumbas. Cada um se comprometia a viver pobre, a rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral. Não era comédia, porque já estavam agindo assim. Nesses quarenta havia um número importante de brasileiros e latino-americanos e , mais tarde, outros subscreveram também.
Alguns acham que a opção pelos pobres é expressão de caridade para com os pobres. Acham que significa amor aos pobres É isso também, mas é secundário. A grande questão é o conhecimento de Jesus Cristo. O que é conhecer Jesus? Onde e como se conhece Jesus Cristo? A centralidade dos pobres vem do fato que os pobres entenderem o que é Jesus Cristo. Não se quer dizer que todos os pobres fazem essa experiência, mas que o conhecimento se faz dentro dessa condição. Nós podemos aprender deles. Nada vamos aprender nocionalmente, mas vivencialmente.
A centralidade dos pobres não compromete em nada a centralidade de Cristo. Pelo contrário, permite que se entenda melhor.
Um sacerdote pode ser um bom funcionário do culto, que celebra com muita piedade, sempre bem comportado, um desses padres que nunca dão problema ao bispo. Mas não entende nada. Provavelmente nunca teve oportunidade de aprender. A culpa não é dele.
Por outro lado, nos evangelhos Jesus identifica-se com os pobres. O que se dá aos pobres, é dado a ele. A sabedoria popular transmitiu fielmente esse ensinamento. Encontrar um pobre no caminho é encontrar Jesus Cristo. O problema aparece nas grandes cidades. A gente encontra tantos pobres que é impossível evocar Jesus Cristo cada vez. Somente alguns podem fazer isso. Por outro lado, muita gente tem dificuldade em aceitar que a consideração dos pobres muda toda a cristologia, como muda a pneumatologia, a eclesiologia e as representações usadas para falar de Deus. Muda toda a teologia tradicional, pelo menos no Ocidente. Isto não pode surpreender. A cristologia tradicional concentrou-se em torno dos dogmas dos 4 primeiros Concílios, e da teoria anselmiana da redenção. Isto quer dizer que era muito parcial, muito particular, centrada em poucas questões. Historicamente, novas questões aparecem que obrigam a situar tudo de uma nova maneira. Novas leituras da Bíblia fazem com que apareçam novas perspectivas.
É significativo que os bispos da geração de Medellín, os padres que os seguiram, tiveram que passar por uma conversão. De repente, descobriram que a teologia que tinham aprendido no seminário escondia uma parte da realidade e que fatos evidentes obrigaram a descobrir, por exemplo, o que a Bíblia diz dos pobres.
Um obstáculo é o preconceito de que Jesus anuncia uma boa nova para todos. Ora ele anuncia uma notícia péssima para os ricos que vão perder tudo, para os sacerdotes que vão perder o templo e desaparecer, para os doutores cuja ciência se torna irrelevante, para os fariseus cuja santidade fica desmascarada, para Herodes.
A boa noticia é para os pobres, os desarmados, os perseguidos. Mas sucede que muitos cristãos fazem questão de apagar as diferenças e lêem o evangelho como se se dirigisse a todos igualmente, como se Jesus falasse para os homens em geral, sem nenhuma referência à sua situação, assim como fazem os filósofos gregos. O próprio documento de Aparecida apresenta o evangelho como boa noticias válida para todos, sem nenhuma diferença. De fato, para quem estudou somente a teologia tradicional, não há problema. Para eles o evangelho é o mesmo para todos, embora os textos bíblicos e inúmeros documentos da Tradição manifestem a cada página que não é verdade. A teologia podia esconder o evangelho. Desconfio que ela não era completamente inocente, mas que tinha alguns motivos menos religiosos para silenciar certos aspetos dos evangelhos.
Um dia um camponês do sertão pernambucano disse-me: "Eu sou alfabeto, mas quando ouço o vigário explicar o evangelho, acho que ele não lê tudo, porque o que lê, sempre dá razão a ele". Esse camponês era muito inteligente. Pois o vigário escolhe sempre o que é favorável a ele.
Claro está que Clodovis sabe tudo isso. Mas muitos leitores não sabem e podem ficar confirmados nos seus preconceitos. Continuarão achando que os pobres não têm nada a ver com a doutrina cristã, em particular com a cristologia. Pensarão como sempre que os pobres são objeto da caridade dos cristãos e os cristãos devem reconhecer esse dever de caridade. Como dizia um dia o cardeal Daniélou: "os pobres têm lugar num parágrafo de um artigo de um capítulo do tratado sobre a caridade". Os pobres seriam objeto da compaixão dos cristãos porque sofrem muito.
Se essa fosse a opção preferencial pelos pobres, esta seria totalmente inofensiva e irrelevante.
Os pobres não tomam o lugar de Cristo, mas eles têm um lugar especial, fundamental, central em Cristo.Que a teologia da libertação morra ou não, não importa. Mas depois de Medellín a teologia não poderá continuar sendo o que era.

* Teólogo.